• 20Abr2017
  • Lifestyle

Porque é que Decidir Ser Solteira Nunca Foi Tão Poderoso

A frase «estamos a tornar-nos nos homens com quem queremos casar» de Gloria Steinem, nunca fez tanto sentido. Fotos: © Imaxtree.

Num texto publicado em julho do ano passado, no site The Huffington Post intitulado «Para que saibam» (For the Record), a atriz Jennifer Aniston, levada até ao limite pela imprensa cor-de-rosa, decidiu pôr os pontos nos is. «Este último mês tornou-se claro, para mim, o quanto definimos o valor de uma mulher com base no seu estatuto conjugal e maternal» escreveu. «A quantidade absurda de recursos que a imprensa está atualmente a usar para tentar descobrir se estou ou não grávida (pela milésima vez… mas quem é que está a contar?) aponta para a perpetuação da ideia de que as mulheres são, de certa forma, incompletas, infelizes e mal-sucedidas se não forem casadas e tiverem filhos.»

Aniston referia-se a uma sucessão de notícias que giravam à volta da sua eventual gravidez, mas foi a menção do estatuto conjugal que mereceu o aplauso global das mulheres solteiras de uma certa idade. Eu fui uma delas. Porque, durante um momento, depois do final do seu casamento com Brad Pitt, Aniston foi selecionada pela imprensa para representar a Mulher Solteira a Envelhecer – uma figura retratada como alguém de quem devemos ter pena.
Mas, apesar de este continuar a ser o estereótipo preferido dos tabloides quando falam de mulheres solteiras acima dos 30, a caixa a que fomos renegadas a partir de uma certa altura está-se a abrir graças a uma nova geração de mulheres inspiradas por personagens como Selina Meyer na série Veep, que desafiam os clichés. Em 2016, as mulheres solteiras têm mais poder e influência do que nunca. Mais dinheiro, mais escolhas e mais liberdade do que as gerações anteriores e estão a transformar a paisagem social e económica.

Num artigo de capa da revista New York, adaptado a partir do seu livro All The Single Ladies: Unmarried Women and The Rise of An Independent Nation, a autora americana Rebecca Traister descreve a ascensão da mulher solteira (isto é, não casada) no seu país como uma transformação radical com enormes implicações sociais e políticas. «Estamos a assistir, em várias classes e raças, a uma revisão total daquilo que a vida feminina envolve. Estamos a experienciar o surgimento da mulher adulta independente como a norma, e não como uma aberração, e a criação de uma nova população: mulheres adultas que já não são económica, social, sexual ou reprodutivamente dependentes nem definidas pelos homens com quem casam.»

 

O Presente no Feminino

Embora Traister reconheça que houve movimentos sociais e históricos que tornaram esta mudança possível (desde as sufragistas do século XIV aos movimentos dos direitos homossexuais em meados do século XX), a autora afirma que não a vê como um acontecimento político consciente. «As mulheres de hoje, na sua maioria, não fogem do casamento nem o atrasam para marcar uma posição. Fazem-no porque interiorizaram pressupostos que, há meio século, teriam parecido profundamente radicais: que não serem casadas não é um problema; que são pessoas completas capazes de viver vidas profissionais, económicas, sociais, sexuais e parentais por si próprias caso não conheçam alguém a quem se queiram unir legalmente.»

As mulheres já não planeiam o casamento. Não esperam para ter alguém que lhes dê suporte financeiro. Nem precisam dele. As mulheres solteiras estão a tornar-se um grupo socioeconómico cada vez mais significante. Por exemplo, na Austrália, os números do instituto nacional de estatísticas revelaram que 65 por cento das mulheres solteiras que têm uma casa são proprietárias das suas próprias casas (comparadas com 55 por cento dos homens solteiros). Eu tinha 33 anos quando comprei o meu apartamento e, para os outros, não parecia um grande feito. Pequeno e a precisar de obras, sabia que teria de trabalhar para torná-lo meu. E diverti-me imenso a escolher os azulejos e a decidir a cor das paredes. Sabia que, acontecesse o que acontecesse na minha vida amorosa, o meu apartamento estaria sempre lá para mim. E tem estado. Já saí de casa duas vezes, e voltei. Entre discussões e lágrimas, soube sempre que não estava com alguém por segurança e podia decidir ficar, ou não com base na força da própria relação.

 

Mulheres de Negócios

Para além dos portefólios de propriedade pessoal, as mulheres solteiras estão também a esculpir o mundo dos negócios. Andrea Myles tinha 32 anos e estava numa relação de longa distância «complicada» quando criou a sua primeira start-up. Descobriu que, quanto mais tempo passava sozinha, mais recompensante era. «Foi uma altura maravilhosa em que eu estava a abrir as asas o máximo possível e a reparar que afinal conseguia fazer o dobro ou o triplo daquilo que eu achava.» Aos 37 anos, é agora cofundadora e CEO do China Australia Millenial Project, tem dois mestrados bilingues em Negócios e Cultura Chinesa, viveu na China mais de cinco anos e foi nomeada para um prémio em 2015. Também é cofundadora do Sydney Roller Derby League. Enquanto crescia, tinha medo de não conseguir escapar à vida de dona de casa suburbana. Não valia a pena ter-se preocupado. «Fui capaz de aprender chinês e de viajar internacionalmente várias vezes. Consegui escapar à classe trabalhadora e a um ambiente tradicional, e essas opções nem sequer existiam para a geração da minha mãe.»
De forma semelhante, aos 36 anos, Jo Stewart está a viver o sonho da sua vida. A escritora de viagens sediada em Melbourne que passa vários meses fora em expedições à
Antártida ou a viajar pelo deserto de Simpson, acabou de assinar um contrato para a publicação do seu primeiro livro e faz ainda trabalho de caridade. Ser solteira contribuiu muito para ter alcançado tantas coisas nos últimos anos. «Quando estou numa relação, tenho tendência a tornar-me um bocadinho preguiçosa e complacente com a minha carreira e as minhas próprias necessidades» diz. «Às vezes roda tudo mais à volta deles do que de mim. Talvez fosse por causa dos parceiros que escolhi, talvez pudesse ter escolhido melhor, mas as nossas prioridades mudam. Eu penso: “Sou solteira, por isso mais vale abraçar todas as oportunidades que se atravessam no meu caminho.”»
Traister afirma que a aceitação de novas ideias sobre a família e o questionamento do casamento tradicional como o ideal mais importante da sociedade está a ter profundos efeitos na política. No entanto, apesar de as mulheres solteiras serem cada vez mais poderosas enquanto grupo eleitor democrático, continuam a ser largamente invisíveis dentro do contexto mais amplo de comunidade. Assuntos como controlo de fertilidade, igualdade de salários ou se- gurança no trabalho, continuam a ocupar lugar secundário na política face a outros ligados ao cuidado das crianças ou relacionados com as licenças de paternidade ou maternidade.

 

Momento Atual
Mas enquanto a política ainda tem muito para avançar, as empresas de carros, os sites de viagens e, surpreendentemente, as empresas de brinquedos sexuais compreendem cada vez mais o poder e a influência crescente das mulheres solteiras na casa dos 30. Com dinheiro, liberdade e oportunidades sem-fim, vivemos num tempo em que podemos realizar os nossos sonhos, nos nossos próprios termos. Sendo «agora» a palavra-chave. Porque enquanto mulheres maduras, podemos decidir livremente a nossa vida amorosa, ou escolher ignorar opiniões menos informadas. Aniston pode ter mudado o seu estatuto legal para casada, mas o seu discurso reflete as mudanças e impõe a reflexão.

 

Artigo originalmente publicada na ELLE de fevereiro de 2017.