• 21Abr2017
  • Moda

Explicamos Porque é Que Tem de Esquecer as Suas Skinny Jeans

Despedimo-nos, por agora, dos skinny jeans e voltamos a abraçar modelos com um corte mais descontraído. Fotos: © Imaxtree.

Tenho memórias vívidas da minha mãe vestida com umas Levi’s 501–de cintura subida, ligeiramente desbotadas, fecho com botões, corte afunilado mas largo e ganga espessa – durante vários momentos da minha infância.

Quando cheguei à adolescência, recriar o look de Kate Moss e Sienna Miller com as suas super-skinny Sass & Bide, modelo Misfit, tornou-se no meu grande objetivo. Lembro-me de gozar com a minha mãe, dizendo-lhe quão «datadas» eram as suas 501. E ela dizia-me sempre: «Elas um dia vão voltar, vais ver.»

Ela estava certa: voltaram. Agora as suas Levi’s 501 fazem-me a mim parecer datada. Tenho 24 pares de calças e todos eles são skinny. Depois de vários anos em maré alta, as skinny tornaram-se nas antigas estrelas rock do denim, que veem agora a luz da ribalta ser-lhes roubada por outros modelos. Claro que a Kate Moss ainda as usa, mas ela é a Kate Moss. E eu, infelizmente não sou.

O que costumava ser a base à prova de bala do meu look agora faz-me sentir demasiado exposta. Independentemente daquilo com que as combino, as proporções parecem sempre erradas.

E eu não sou a única que se sente assim. «À medida que fico mais velha, usar peças que abraçam o corpo deixou de ser central para mim e sentir-me confortável na minha roupa passou a ser o mais importante» explica Alexandra Stedman, a blogger por detrás do blogue The Frugality. «Além disso, a tendência no denim afastou-se das silhuetas mais justas e aproximou-se de outras mais relaxadas e volumosas.»

A escritora e consultora criativa parisiense Camille Charrière, de 28 anos, concorda. «Foi muito difícil deixar as skinny, especialmente sendo francesa, mas agora acho difícil voltar a elas. Acho que essa perspetiva também muda com a idade – pareces mais rock’n’roll em skinny jeans, mas mais elegante numas boyfriend» justifica. Acrescentando ainda que as suas calças preferidas são da Levi’s e da H&M.

Mas quando e porquê é que teve início o declínio das skinny jeans? «As jeggings arruinaram-nas» diz-nos Donna Wallace, a editora sénior de acessórios da ELLE inglesa, que acrescenta que atualmente as suas calças preferidas são umas Lee de homem e corte direito, às quais ela cortou as bainhas. «Assim que conspurcaram o denim com demasiado elastano, tornou-se trashy.»

A nossa perceção do que é cool mudou. E apesar de ainda me custar a aceitar que as skinny jeans não são, como eu pensava anteriormente, as minhas parceiras de denim para a vida, esta mudança simboliza também uma alteração de paradigma na Moda e isso é sempre entusiasmante. Marcas como a Vêtements,o coletivo underground francês que se tornou numa das mais poderosas do momento, ou como a Marques’Almeida, a ultra-cool etiqueta portuguesa, sediada em Londres, lideraram o regresso do verdadeiro denim. Lembraram-nos de uma era dourada, pre-skinny, quando a ganga era mais grossa, não tinha elastano e representava sobretudo uma atitude e não apenas um look off-duty. Basta pensar em Farrah Fawcet, nos Anjos de Charlie, em cima daquele skate, ou em Jane Birkin com as suas calças à boca de sino, ou ainda na viagem percorrida por Thelma e Louise.

A forma como compramos também mudou. «Anteriormente as clientes encontravam o estilo, ou corte que preferiam e mantinham-se fiéis a ele, mas hoje estão a construir um guarda-roupa de jeans, com diferentes formas, cortes, lavagens e acabamentos, que usam dependendo do mood do dia» explica Emma Fox, a diretora de compras da Topshop.

A prova? Estamos a comprar mais jeans, e de todos os preços. Em 2016 o Net-a- -Porter registou um aumento de 25% nas vendas, em comparação com o ano anterior, e tem dificuldade em manter em stock os modelos da Vetements, apesar de os preços estarem acima dos € 1000. No segundo trimestre de 2016, as vendas da Asos, também cresceram cerca de 47%, em comparação com o mesmo período de 2015, e até ao final de junho a cadeia tinha vendido cerca de 12.000 pares do seu modelo Farleigh, uns mom jeans que custam cerca de € 50.

A influência do streetstyle nesta nova vaga do denim é inegável, e hoje a linha que traça a origem das tendências parece ter-se invertido: começando muitas vezes nas ruas e influenciando depois designers e marcas, ao contrário do que acontecia anteriormente.

O fenómeno do streetstyle, tornado possível pelo crescimento extraordinário do digital e das redes sociais na última década significa que agora a inspiração está continuamente disponível. Podemos hoje, mais do que nunca, ver como é que pessoas reais combinam as peças e como é que as tendências funcionam no dia a dia. Deixámos assim de estar restritos à edição criativa das grandes marcas. E isto tornou-nos seguramente mais confiantes e aventureiros, mas sobretudo sintonizou-nos com o nosso estilo pessoal. Naturalmente, isso mudou também a nossa relação com o denim, tornando-nos cada vez mais ecléticos nas nossas escolhas.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de janeiro de 2017.