Mais do que Beneficiar o Corpo, o Desporto Beneficia a Saúde Emocional

Fazer exercício físico é a melhor forma de ter um cérebro em forma. E não é ficção. É mesmo neurociência. Por: Cristina Mitre -- Imagem: © Thiemo Sander

«Com isto, quantas calorias vou perder?». Se fizéssemos uma sondagem em ginásios, muitos professores diriam que esta é a pergunta que mais ouvem dos seus alunos. Porque, até agora, parecia que o único critério para decidir se um exercício era bom ou não era a quantidade de calorias que fazia perder (quantas mais, melhor). Mas e se agora descobríssemos que o desporto pode desenvolver a nossa inteligência e tornar‐nos mais resistentes ao stress? Esta é a linha de investigação da neurocientista Wendy Suzuki que, no seu livro Healthy Brain, Happy Life, defende que o verdadeiro benefício de poor o corpo a mexer pode ser mais mental do que físico.

Neurónios musculados

«O esforço aeróbico melhora muitas funções fisiológicas, desde o ritmo cardíaco à respiração e a temperatura corporal, passando pela tonicidade muscular. E também pode transformar o cérebro de uma maneira assombrosa», refere Suzuki. Estudos como este, sobre os efeitos positivos do treino nas funções cognitivas dos seres humanos, não são novos e embora as conclusões não sejam definitivas, o que se sabe é que, quanto mais fizermos agora, melhor será a nossa saúde neurológica no futuro. Há até uma menor incidência de demência em pessoas que praticam muito desporto.

Só boas notícias. Por um lado a atividade aeróbica mantém a nossa gordura corporal controlada, por outro estimula a neurogénese. Ou seja, o nascimento de neurónios no hipocampo, a área do cérebro que regula a memória e as emoções. Por outro lado, parece cada vez mais claro que nos ajuda a relaxar.

Suar as preocupações

Como analisa a psicóloga Patricia Ramirez, «está provado que treinar de forma assídua é um regulador potente da tensão e da ansiedade e favorece estados de ânimo positivos». Segundo um estudo, tanto o exercício cardiovascular como o de força podem reduzir para metade o stress psicológico crónico, ou o burnout, uma doença considerada por muitos como a epidemia da atualidade.

De facto, em quantidades adequadas à condição física de cada um, o cardio é benéfico para a saúde porque fortalece o sistema imunitário e cardíaco e ajuda‐nos a recuperar de lesões com mais rapidez. Tem é de ser feito com conta, peso e medida. Nada de excessos nem fundamentalismos. «Sabemos que, quando a prática de torna obsessiva, a descarga é tóxica para o corpo e cérebro. Afeta o hipocampo, o córtex pré‐frontal e a amígdala (que são  os centros da memória), a função executiva e a gestão das emoções. Mas a adrenalina tem enormes vantagens: evita doenças coronárias, depressão, problemas no sistema reprodutivo entre outras outras,» diz Suzuki.

Certo é que o nosso corpo não diferencia entre situações de emergência real (de vida ou de morte) e a angústia psicológica tão típica dos dias de hoje. E assim, «preocupar‐se pelo pagamento dos impostos pode ativar a mesma resposta física à de um ataque de uma manada de gnus,» compara a investigadora americana.

O fitness mental

Não há nada mais frustrante que ouvir “Vá, não stresses! Calma”. No entanto, parece que a atividade física, como indicam os especialistas, pode ser o melhor remédio. O segredo está, por exemplo, em fazer aulas tipo fusion, em que se misturam estilos diferentes e que não são nada de novo no planeta fit.

O IntenSati é uma das grandes tendências do momento. Nestes treinos (para conhecer em patriciamoreno.com), que misturam posições de yoga, movimentos de artes marciais e diferentes passos de dança, é garantido que suará como nunca e é também provável que saia afónica, se gritar as palavras positivas que o instrutor diz em voz bem alta enquanto faz um lunge. Assim, movida pela energia do momento, é provável que dê por si a repetir: «Agora sou forte!», «Eu mereço!», ou outras palavras do mesmo género. Está provado que este tipo de exercício intencional a ajuda a ligar‐se consigo própria enquanto, sem se aperceber, melhora o seu estado emocional.

A especialista Nessita Aráuz também dá muita importância a este tipo de diálogo e, no seu livro Fitness Emocional fala de como «o nosso cérebro é formado por milhares de conexões que se vão criando desde a infância e que condicionam a nossa vida e a imagem que temos de nós mesmos».

O que acontece é que essas sinapses são plásticas, isto é, elas podem‐se transformar graças a frases que funcionam como halteres mentais, que podem (e devem) ser usados para modificar as crenças que nos limitam. E podemos sempre criar outras crenças em função dos nossos interesses: é o que se conhece como programação neurolinguística (PNL), uma disciplina que estuda a relação entre os processos neurológicos, a comunicação e a aprendizagem. «As afirmações trabalham‐se com base na repetição verbal. Também ajuda escreve‐las em post‐its coloridos e recitá‐las à frente de um espelho; ou gravá‐las como notas de voz no telemóvel e ir ouvindo de vez em quando,» explica Aráuz.

Um exemplo de pensamento recorrente é: “Não tenho força de vontade”. Uma afirmação positiva correspondente seria algo como: “Sou capaz de conseguir tudo a que me proponho”. A autora recomenda que formulemos estes mantras sempre na primeira pessoa, no tempo presente e com referência ao que queremos alcançar».

Da próxima vez que for fazer desporto não se esqueça de exercitar também as emoções.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2018.