#ELLE30Anos: Como os Ideais de Beleza Foram Mudando ao Longo do Tempo

Recuperamos artigos de edições antigas. Este foi originalmente publicado na ELLE de junho de 1990. Por: Fernanda Câncio -- Imagem: © GTRESONLINE.

Não é possível falar de beleza sem recordar Helena, a de Páris, de Tróia e da Guerra, de que nos chegou não a graça do rosto e do corpo mas o devastador poder do seu efeito. Pensaria talvez nas ruínas da cidade-estado, na errância de Ulisses e na loucura de Orestes, Jean Cocteau, quando, em Les Enfants Terribles (1925), escrevia: «Os privilégios da beleza são imensos. Ela age mesmo sobre aqueles que não a constatam.» Houve quem, provavelmente sem a conhecer, se desse ao trabalho de validar cientificamente a frase de Cocteau. Aconteceu na América (where else?) e constituiu numa seríssima investigação levada a cabo no Elmhurst College, em Illinois. Primeiro: depois do sexo, a beleza é a segunda característica individual mais expressiva. É fundamental na opinião que as pessoas têm umas das outras e de si próprias, condicionando os seus comportamentos. Assim, parece que os bebés mais bonitos recebem mais atenção, continuando a discriminação na escola, onde as crianças atraentes têm tendência a ser encaradas pelos professores como mais espertas e com mais potencialidades que as outras, além de beneficiarem de um elevado nível de popularidade entre os colegas. Alguns psicólogos pensam que as pessoas fisicamente atraentes «se conformam» com as altas expectativas que os outros têm delas, aprendendo a gostar de si próprias e criando uma visão do mundo positiva. Em suma: a vida sorri-lhes.

Verdadeira ou não, esta teoria é tanto mais difícil de engolir quando implica que, à partida, o jogo está viciado, e de fato alguns homens não nascem iguais. Uns são mais bonitos que outros, e isso é um fato apenas controlável através de meios sofisticados e puramente artificiais, como a cirurgia estética. Uma injustiça profunda, portanto, e tanto mais exasperante quanto ninguém pode ser por ela incriminado. Porém, há muito mais a dizer sobre a beleza e os seus privilégios, sejam eles tão diretos e simples como alguns psicólogos americanos querem fazer crer ou bem mais perversos e obscuros, como sugeria Cocteau. Pode-se transportar a beleza como uma perdição, um estigma. Desde as sedutoras feiticeiras queimadas pela Inquisição até ao luminoso calvário de Marilyn Monroe, a história apresenta mil e um exemplos de belezas sinistras, amaldiçoadas, infelizes. E como ficaríamos surpresos se, sob o sol deste final de século XX, desfilasse esse cortejo admirável de Salomés, todas essas mulheres cuja beleza única fez delas objeto de admiração, volúpia e ódio. A reunião não poderia deixar de causar perplexidade: lado a lado, perfilar-se-iam as materializações dos conceitos de belo da Renascença, da Idade Média, da Antiguidade Clássica, do século XVII, do século XX (e aí, quantos foram os modelos!). Decerto muitas dessas antigas beldades nos pareceriam destituídas de qualquer graça, demasiado pesadas, insípidas. Talvez a própria Helena não nos impressionasse grandemente. Mas foi por ela que os gregos se fizeram ao mar e arrasaram uma cidade, foi para poder livremente contemplá-la que Páris arriscou o seu reino e o perdeu.

Procurando resolver este enigma, o psicólogo Mihael Cunnigham, do Elmhurst College, construiu o rosto ideal de mulher, baseando-se em medidas precisas dos traços faciais de muitas mulheres hoje em dia tidas como atraentes. O resultado foi uma representação visual de preferências matemáticas: o tamanho ideal dos olhos deveria ser três décimos da largura da cara a nível deles, e o da boca seria metade da largura da cara a nível desta; o nariz perfeito tomaria menos de 5% da área total do rosto, enquanto que a pupila mais desejável era um quarto do espaço entre os malares e o melhor queixo um quinto da altura da cara. Uma coisa um pouco ridícula, convenhamos. Mas Cunningham defende o seu rosto ideal, adiantando uma explicação para estas preferências. Segundo ele, olhos bem afastados e narizes pequenos estão associados à crianças, pelo que alguém com essas características suscita um sentimento de proteção e parece adorável, engraçado. Em contrapartida, sobrancelhas altas, sorrisos largos e pupilas grandes são traços expressivos, comunicativos, que funcionam bem socialmente.

É claro que, como muito bem se disse de imediato em reposta ao modelo de perfeição de Cunningham, ele vale apenas para uma cultura e para uma época, e esta ainda assim muito curta. Nem vale lembrar os conceitos de beleza dos Masai africanos, dos Tuaregues, dos chineses e dos esquimós. Basta pensar no que era a mulher ideal no início deste século e compará-la com Kim Basinger, e estamos conversados. A evolução do ideal de beleza das mulheres e dos homens ao longo deste século tem sido tão rápida como tudo o resto, e está a acelerar-se cada vez mais. Uma atriz ou uma modelo considerada como muito bela a uma dada altura pode ver o seu reinado reduzido a um ano, sendo imediatamente substituída por alguém inteiramente diferente. Tó Romano, um conhecido manequim português que trabalhou no estrangeiro e dirige atualmente uma agência de modelos, está numa posição privilegiada para observar o que se passa no mercado dos looks. «O conceito de beleza que cada pessoa tem é temporal e não é universal. Por exemplo, quando fui trabalhar para Espanha conheci uma sueca que pareceu a mulher mais bonita que até então vira, e pensei que assim a iria considerar durante muito tempo. Pois bem: no outro dia encontrei uma foto dela, e nem sequer a achei a particularmente bonita. Os conceitos de beleza estão a suceder-se a um ritmo cada vez mais rápido, devido ao volume de informação circulante. Nos seis anos que estive a trabalhar como modelo lá fora apercebi-me de que determinados agentes — estilistas, publicistas, revistas, filmes — podem contribuir para transformar o conceito de beleza vigente.»

Kim Basinger em Batman 1989 — Foto: © Warner Bros.

Entretanto, os conceitos de beleza atuais não só estão em constante mutação como se diversificam, permitindo muitas variações. Enquanto que nos anos 20, por exemplo, as mulheres consideradas belas tinham em comum, além dos penteados e da maquilhagem, um rosto redondo e um corpo de ombros estreitos, seios não muito proeminentes e ancas largas, arredondadas, e os corpos ideias dos anos 50 apresentavam todas as formas voluptuosas sobejamente conhecidas, atualmente é difícil definir um ideal único de beleza, quando se confrontam as caras e os corpos daquelas que são consideradas as mulheres mais belas do mundo.

A mudança nos ideais de beleza feminina e masculina está relacionada com a evolução do conceito do belo a outros níveis. Ao longo deste século, a moda, a arte, e as ideias mudaram de forma vertiginosa, de acordo com a aceleração crescente a que se assistiu no modo de vida da sociedade contemporânea. Primeiro como reflexo e depois como agente direto desse crescendo de velocidade, os meios de informação entraram em campo de forma avassaladora, permitindo a todos inteirarem-se dos modelos novos que surgem em oposição aos antigos, sobretudo, fazendo a apologia da novidade e da mudança, que os fundamenta na sua lógica mais profunda. É porque algo se passa de novo que as pessoas querem ser informadas, porque de contrário nada há para dizer ou saber. As imagens esgotam-se, o público está viciado na sucessão, no movimento, quer ser surpreendido. O capital de um rosto como o daquela que foi recentemente considerada a mais bela mulher do mundo, a checa Paulina Porizkova, imagem de marca de cosméticos Estée Lauder, pode levar mais ou menos tempo a esgotar-se, mas nunca mais de dois pares de anos. O mercado é implacável, e tal como ela veio substituir outra de que já não se lembra o nome, acabará um dia por ser substituída.

Paulina Porizkova — Foto: © HBO

O que a princípio resultava de um lentíssimo movimento do imaginário coletivo, influenciado por razões sociais, económicas e culturais, passou a ser um mecanismo mediático e comercial que contudo não pode perder de vista a receptividade do público. Isto é: tal como quando um criador de moda lança uma nova linha pode ser votado ao fracasso se não souber interpretar o que “anda no ar”, também o lançamento de um novo look é algo de arriscado e absolutamente dependente da apetência do público. Tem de haver um encontro a meio caminho, não é possível existir uma imposição pura e simples. Por exemplo, a moda recente das mulheres voluptuosas, «pulpeuses», curvilíneas, de seios abundantes, que começaram a ressurgir como ideal no início dos anos 80, nas passarelles (o percursos, claro, foi jean Paul Gaultier) e nos filmes (Béatrice Dalle em Betty Blue, de Beineix, por exemplo), é um fenómeno de moda, induzido, que pode ser encarado como um revivalismo das formas dos anos 50, que surgiram também a outros níveis, mas é também lógico em termos da evolução da imagem da mulher. Muitas explicações se podem aventar, mas algumas fazem mesmo sentido: após a onda “plate”/adolescente dos anos 60, que surgiu como oposição à mulher ideal dos anos 50, afirmação de juventude e revolta em relação aos valores precedentes, e após a revolução feminista dos anos 70, em que as curvas do corpo eram dissimuladas, as saias e calças muito compridas e largas, as mulheres estavam capazes de assumir de novo o corpo em todo o seu esplendor feminino, sem complexos, com humor e malícia.

A uma fase de afirmação de igualdade para com os homens, em que era embaraçoso, por variadíssimas razões, chamar a atenção para a feminilidade do corpo, sob pena de ressuscitar os fantasmas do machismo e do sexismo, sucedeu-se a reconciliação das mulheres consigo próprias. A moda, o cinema, os fazedores de ícones expressaram de forma significativa esse retorno da mulher-mulher que está atualmente no seu auge, o que provavelmente quererá dizer que está prestes a surgir um novo modelo de corpo ideal. Aliás, diga-se em abono da verdade que coexistem bastante pacificamente vários estilos, não só de rosto mas de corpo: basta folhear uma ELLE para chegar a essa conclusão. Ainda que os modelos mais carnudos, de busto desenvolvido e “redondezas” no sítio tendam a predominar, encontram-se também algumas Twiggys, umas tantas andróginas e mais um ou dois tipos. Em suma, a pulverização verificada do sistema da moda, que lhe destruiu a unicidade e promoveu a diferença, passou também para o lado dos corpos e dos rostos. O individualismo, a idiossincrasia como valores supremos passaram de lemas vestimentares para dizer igualmente respeito ao físico, às dádivas com que a mãe natureza, à nascença, prendou cada um de nós. Passou a ser mais valorizado o caráter do que a beleza regida por cânones clássicos.

 

Tó Romano, louro, de olhos azuis e feições irrepreensíveis, foi surpreendido por essa onda: «Há três ou quatro anos começou a haver procura de um tipo de beleza que não tem a ver só com um efeito físico mas com algo mais, já do foro psicológico. Lembro-me de uma vez que fui apresentar-me para um trabalho, e estava lá um tipo de nariz torto, vestido de qualquer maneira, muito blasé. E eu todo bem arranjado, penteado, etc. Foi ele o escolhido. Quando fui ver a passagem, era só gente assim, com alguma coisa de diferente. Chegaram a ir buscar modelos à rua, para mostrar que a roupa podia ser vestida por qualquer pessoa, escolhiam-se modelos com narizes toros, coxos, etc. Mas é uma onda que está a passar. Já depois dessa surgiu o look rácico, ou étnico, em que se procuram as caras diferentes mas do ponto de vista da raça, como as ruivas com muitas sardas, as indianas, as negras com traços orientais como a Naomi Campbell ou a Júlia…. Porém, estive agora em Tóquio e toda a gente está a falar num retorno a uma ideia clássica de beleza, algo que tem a ver com proporções perfeitas, traços corretos, etc.»

Os semi-deuses louros, de olhos azuis e metro e noventa, estão d volta não tarda nada. Pelos vistos, o exotismo e o caráter deram o que tinham a dar. Que pena, agora que as pessoas já se começavam a habituar a ver nos narizes grandes um sinal de caráter e a desistir das plásticas…