#ELLE30Anos: De Que Falamos Quando Falamos de Paixão?

Recuperamos artigos de edições antigas. Este foi originalmente publicado na ELLE de novembro de 1988. Por: Fernanda Câncio -- Imagem: © Duel in the Sun.

Na abertura de Senso (Sentimento, 1954) Luchino Visconti define sentimento como aquilo que por natureza é contrário à razão. O filme narra a história – passada na segunda metade do século XIX, durante a ocupação da Itália pela Áustria – de uma condessa italiana (Alida Valli) que se apaixona por um oficial das forças de ocupação (Farley Granger), sacrificando por esse amor a sua dignidade e todas as lealdades a que antes se obrigara. Quando descobre que ele a enganou, que não a ama, denuncia-o às autoridades austríacas como desertor. As últimas imagens são de Alida Valli cambaleante, enlouquecida, vagueando pelas ruas de Verona, gritando o nome do seu amado enquanto este é levado pelo pelotão de fuzilamento.

Noutros filmes se explora esta ideia de paixão como destino fatal, como força exterior e indomável, que arrasta os seres que dela são possuídos para a perdição, para a morte. No lendário Duel in the Sun (Duelo ao Sol, 1946), de King Vidor, Jennifer Jones é uma mestiça que ama desesperadamente Gregory Peck, entregando-se-lhe e sendo por ele desprezada. No final, os dois amantes enfrentam-se em duelo, ferindo-se mortalmente e, num derradeiro esforço, unem-se para morrer juntos.

Em Dishonored (Fatalidade, 1931), de Sternberg, Marlene Dietrich é uma prostituta que se converte em espia ao serviço da Áustria contra a Rússia, se apaixona por um oficial inimigo e, quando este é feito prisioneiro, lhe permite a fuga, tornando-se culpada de alta traição e sendo por isso fuzilada pelas autoridades do seu país. A sublime Ava Gardner é, em Pandora and The Flying Dutchman (Pandora, 1951), de Albert Lewin, a apaixonada de um fantasma errante, James Manson, o holandês voador, para descanso e redenção do qual dará a sua vida, dizendo: «the meisure of love is what you are willing to give for it (a medida do amor é o que se está preparado ou se quer dar por ele)».

Também a literatura está repleta de paixões funestas e avassaladoras (O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, para citar um grande clássico), mas surgem todas como um belo anacronismo pertencente ao passado. Na produção literária mais recente (como na cinematográfica, de resto) predomina a nostalgia dessa paixão e a descrição de um quotidiano desertificado, «mais estranho que o paraíso» que é, por definição, o lugar onde nada acontece. As grandes paixões dos romances contemporâneos (da primeira metade do século XX) já traziam esse gosto amargo de um excesso de solidão, de um desencontro cruel e inevitável, nascido não das convenções sociais e das imposições exteriores mas daquilo a que poderia chamar «a impossibilidade do amor». É o caso de Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry, e do duríssimo Golpe de Misericórdia, de Yourcenar, em que Sophia, uma jovem russa, ama o nazi alemão Erik. A história situa-se no país báltico, durante os conflitos entre bolcheviques e os seus opositores. Erik joga com Sophia um jogo atroz, onde pontua a sua hipotética homossexualidade e em que o crescendo do desespero dela coincide com o avançar da frente de batalha, cada vez mais próxima. No final, ela foge para se juntar aos vermelhos, e é posteriormente feita prisioneira pelo batalhão comandado pelo homem que ama. Quando é decidido que os prisioneiros serão fuzilados, há quem tente poupar Sophia desse destino. Ela rejeita calmamente a ideia, e pede que seja Erik a dar-lhe o golpe de misericórdia. E ele assim faz.

«Já não há ficções inocentes», dizia Wim Wenders, realizador de Paris, Texas, a propósito do cinema (e de tudo?). Mas, como nesse filme, permanece o imenso desejo de recuperar a inocência, o tempo, o amor, de reconstruir sobre os escombros deixados após o bombardeamento da lucidez. A vontade de aceitar a vulnerabilidade inerente à paixão, como no caso de Maria M., de 45 anos, que há sete vive com um homem por quem se apaixonou quando era casada com o seu primeiro marido. «O amor gera a fortaleza», diz, a propósito da fragilidade que é condição dos apaixonados. E prossegue: «A paixão é entrar numa espécie de reclusão, uma cela onde há a reza e existe a espera donde tudo provém e se renasce . É não me pertencer e ao mesmo tempo estar no meio da solidão».

Algarvia, residente em Lisboa, Maria M. É uma poetisa com livros publicados. E confessa que a sua produção literária está muito ligada à paixão, que é «o esteio onde se enreda a escrita». O seu imaginário está marcado «pelas amantes excessivas, pelas grandes amorosas, pelos mitos que trocaram a segurança pelo risco, o amor pelos seus simulacros. Como Heloísa – a obstinada Karenine – e outras que ninguém conhece mas a quem vi sofrer desgarradamente por causa o amor».

Num época em que – pelo menos durante algum tempo – o ideal foram as ligações rápidas e pouco profundas, como se, à maneira estoica, as paixões constituíssem uma perniciosa doença da alma (não estando provado que assim não seja), um escolho onde tropeçaria a razão e titubeariam as ambições profissionais, Maria M. é «uma resistente, uma habitante do lado sombrio do amor». Para ela o fulcro da existência situa-se definitivamente nas relações passionais, e o dinheiro é «perfeitamente secundário, só tendo sentido para realizar fantasmas – viagens, roupa – com o homem por que se está apaixonada. O trabalho é o tempo em que, porque não se está ao pé do outro, se renova o que por este se sente; uma espécie e hiato em que o amor floresce na distância».

Para Isabel P., de 27 anos, empresária, a paixão é «um motor, um combustível», sem o qual não consegue funcionar, mesmo a nível profissional. «Preciso de estar constantemente apaixonada», afirma, mas ressalva: «Não ponho a paixão acima de tudo, mas como base. Não se supera, e quando vejo que me começa a prejudicar arranjo maneira de me apaixonar outra vez, por outra pessoa». No entanto admite que perdeu algumas vezes o controlo, que não é fácil manter as coisas num nível não perigoso. «Já estive apaixonada por duas pessoas ao mesmo tempo, e é uma situação complicada. Mas se não me obrigassem a optar, eu seria capaz de viver com isso».

Com uma filha de 11 anos, Isabel P. casou muito cedo e viveu com o marido bastante tempo após o fim do amor: «No meu período de casada mas de já não estar apaixonada tirava 15 dias por ano para ir a Paris apaixonar-me. Duma dessas vezes tive uma experiencia traumática e voltei para Portugal um bocado abatida, porque não tinha conseguido encontrar uma paixão. Justamente no comboio de regresso conheci alguém com quem iria ter uma relação muito intensa, que durou dois anos e tal, e que foi uma história de desencontros. Estivemos juntos algumas vezes, em Lisboa e em Paris, mas nunca tivemos tempo. A nossa grande paixão foi toda por carta, chegávamos a escrever-nos duas e três vezes por dia. Foi sempre uma coisa muito pouco sexual. Quando ele finalmente veio a Portugal com tempo, eu já tinha casa para recebê-lo, mas tinha encontrado o meu último grande amor, que aliás foi apresentado. Passámos uma tarde bastante agradável juntos, mas ele nunca mais me escreveu. Foi uma história muito corrosiva, em que se vivia apenas das cartas e da memória. Talvez quando eu estiver num buraco emocional lhe escreva de novo… É a reserva do afecto, a mania um pouco egoísta de meter os amantes no congelador».

Luciana D., madeirense, afirma ser difícil definir paixão: «É muito mais fácil dizer o que não é do que tentar explicá-la. Sem ela, a maior parte da vida não teria interesse. A paixão é extremamente estimulante, mesmo se por outro lado há aquelas coisas aborrecidas ligadas às paixões de amor, a tensão, a angústia, etc. Mas isso faz as pessoas mexerem-se para qualquer lado».

Aos 36 anos, esta funchalense considera que está na hora de fazer um balanço. «Houve uma altura da minha vida em que eu achava que devia dedicar a vida à arte, que era isso que me interessava. Mas quando se chega à minha idade percebe-se que as pessoas são muitíssimo importantes. E o mais complicado é chegar a meio da vida e perguntar: e se eu me enganei? Nessa altura já não há muito a fazer. E depois há aquela fase do Huston, (em The DeadGente de Dublin), que eu ainda não consegui digerir, quando e diz que vale mais morrer no meio de uma paixão do que passar pela idade, pela vida, e não ver nada». E continua: «Alguém disse que viver sem raízes amargura o coração. Viver sem paixões também amargura, imensamente. Uma carreira não pode substituir uma paixão; há casos de mulheres que se interessam exclusivamente pela carreira, pelo dinheiro, mas isso não tem anda a ver com a paixão, é uma coisa muito cerebral. Aliás, a propósito, tenho uma prima que fez o Conservatório – estudou com o Sequeira Costa – e tinha grandes possibilidades. Na altura ela teria talvez mais de trinta anos, e reencontrou um alemão com quem já tivera uma relação e que lhe propôs casar e ir viver para o Canadá. Depois escreveu uma carta à minha mãe a dizer que tinha desistido do piano porque era difícil conciliar duas paixões na vida dela. Na altura fiquei muito impressionada com esta história. E há aquela outra de uma mulher que teve uma grande paixão por um homem que depois se foi embora, já não sei porquê. Os anos passaram e ela ficou noiva de outro. No dia do casamento o primeiro apareceu-lhe a dizer que queria reatar tudo, casar, etc. Não me lembro como tudo isto acabou, mas faz pensar até que ponto não se deve racionalizar a paixão? Há quem diga que os deuses protegem aqueles que arriscam tudo, e às vezes é imprescindível andar no fio de uma navalha. Mas, por outro lado, quando já não se tem vinte anos, que é por excelência a idade das aventuras, é difícil arriscar».

Sobretudo porque, como sublinha Luciana D., «a grande tragédia do amor não é a morte e a separação, é a indiferença. É quando se olha para um homem com quem se teve uma grande história, e se percebe que já não se sente nada por ele, por quem se teve a maior das loucuras. É tão frio, tão chocante, tão cru, que se tem de pensar nisso. Custa-me aceitar a vida da maneira como ela se apresenta, é uma dádiva feita de uma maneira mesquinha, e é precisa a nossa imaginação de todos os dias para lhe dar um sentido. T.S. Eliot disse um dia que ‘every poem is an epitaph’. Se calhar cada paixão também é um epitáfio. São coisas tão intensas que quando acabam morrem definitivamente».

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de novembro de 1988.