Como Annika Sörenstam Deixou Marcas No Golfe Feminino

A golfista sueca fala sobre as dificuldades que superou na sua carreira e as vitórias que a marcaram. Imagens: © D. R. e Gtresonline (4)

Estava a voar para casa – Sudoeste, lugar 36C – quando o capitão fez o anúncio através do altifalante. Annika Sörenstam acabava de ganhar o U.S. Women’s Open, em 1995. A golfista sueca conseguia a primeira vitória profissional nos Estados Unidos, e agora todos a bordo sabiam. «Eu corri para a casa de banho, para me esconder», lembra-se. «Eu não queria a atenção».

Sörenstam afastou-se durante um mês para evitar os media, mas timidez da atleta (quando era mais nova preferia acabar em segundo lugar do que fazer um discurso de vitória) acabou por ser ultrapassada a favor da sua paixão pelo jogo. Quando se reformou, em 2008, Sörenstam era virtualmente imbatível e deixou a sua marca no desporto como a única mulher a ultrapassar os 60 num evento e a primeira mulher em mais de 50 anos a pedir na PGA Tour. Cheia de gratidão pelo que aprendeu ao longo do caminho, Sörenstam, agora mãe de dois filhos a viver com a família em Orlando, construiu a Annika Foundation para dar a aspirantes a golfistas, na sua maioria raparigas, uma oportunidade de brilhar e ter histórias de sucesso – e ter orgulho nisso, de cabeça erguida.

Sobre a introdução ao golfe: 

«Eu pratiquei todo o tipo de desportos, mas a minha primeira introdução [ao golf] foi com os meus pais. Nós íamos até ao campo de golfe. Eu tenho uma irmã mais nova – nós não jogávamos muito, mas sentávamo-nos nos carros e os meus pais andavam connosco. Dezoito buracos é muito a empurrar carros, então eles deixavam-nos num buraco e diziam ‘Aqui têm dinheiro para gelado’, e voltavam 45 minutos depois e puxavam-nos no carro outra vez. Uns anos depois já jogávamos putt [quando eu tinha 8 a 10 anos]. Mas não éramos membros – tens de pagar uma cota para cada [membro da família] – então o diretor geral, um homem velho, vinha e dizia ‘Não podem jogar putt aqui.’ Nós corríamos dali e meia hora depois voltávamos e ele voltava a dizer ‘Não podem jogar putt aqui!’. Foi assim a minha introdução ao golfe.

Sobre crescer como filha de atletas: 

«A minha mãe foi campeã de golfe no clube. Ela também jogava basquetebol, e o meu pai fazia tudo, mesmo: corrida, campo, andebol, que é mais popular na Europa. Nós estávamos sempre à volta de desporto e éramos muito competitivos fosse cartas ou Yahtzee. Eu jogava futebol e competia em ténis desde que tinha cinco anos. Eu achava o golfe lento. Não havia muitos miúdos [a jogar golfe] nessa altura, e parecia um desporto de homem velho!»

«Desde cedo, o meu medo de ser vista e ouvida foi muito forte. Pensava, ‘é melhor estar quieta’.»

Sobre apaixonar-se discretamente pelo golfe: 

«Com 16 anos percebi que a minha backhand não era forte o suficiente, e depois de jogar e perder 6-0, 6-1, acaba por ser um pouco desanimador. Mas eu estava a ficar cada vez melhor no golfe.

«Os meus pais tinham uma cave grande – mas grande mesmo; eu posso literalmente chegar aos 23 metros – e [num inverno] comprei uma rede e uma esteira. Eu jogava ténis e depois baixava a rede e jogava golfe. Passei horas na cave depois da escola a praticar ténis e depois golfe, mas começou a ser cada vez mais golfe.»

«Eu trabalhava na minha técnica e não me importava de dar sempre o máximo por algum motivo. Achava divertido. Então quando a neve começou a descongelar e o inverno acabou, eu não estava tão enferrujada porque tinha estado a bater bolas todo o inverno. E depois fui convidada para a equipa nacional como teste. Depois fui a Espanha e joguei golfe a sério, num campo de golfe a sério, e foi assim que, aos 18 anos, me tornei um membro da equipa nacional.»

Sobre proteger-se com a timidez: 

«Desde cedo, o meu medo de ser vista e ouvida foi muito forte. Na escola, eu não levantava a mão para responder a uma pergunta porque se dissesse a coisa errada achava que toda a gente se iria rir de mim. Pensava, É melhor estar quieta

«No campo de golfe, o medo de fazer um discurso de vitória e toda a gente olhar para ti – é algo com o qual eu não estava confortável. Mas depois, ao conduzir para casa, pensava Porque é que eu treino de forma tão dura e depois descarto-o assim?, Eu sabia que tinha de trabalhar nisso.

Sobre ultrapassar os medos e receios: 

«Os meus pais criaram um plano. Eles ligaram ao diretor do meu próximo torneio e decidiram que todos os jogadores tinham de dizer alguma coisa, por isso podes imaginar… Eu estava do género, ‘Bem, eu não ganhei’. E eles disseram ‘Nós sabemos, mas adorávamos que dissesses alguma coisa’. Eu fiquei aterrorizada. O meu coração parecia um dos desenhos animados, consegui senti-lo a saltar do peito.»

«O meu pai disse ‘Traz um taco de golfe para o palco, sentes-te confortável com isso.’ Fi-lo. Provavelmente não foi o discurso mais elegante de sempre, mas consegui. Foi aí que percebi que há algumas coisas na vida que podes não gostar e que podem deixar-te desconfortável, mas se queres avançar, vais ter de lidar com isso e fazer o melhor da situação. Mas quando ganhei o meu primeiro grande torneio, em 1995, no U.S. Open – não há como estar quieta e calma quanto a isso, não é?»

Sobre lidar com o estrelato repentino: 

«Foi difícil para mim. Claro, estava radiante e tão entusiasmada – [a vitória no U.S. Open] foi um sonho tornado realidade. Mas de repente as pessoas queriam saber, ‘Onde é que esta jovem vive?’, ‘Com quem é que ela anda?’, ‘O que é que ela gosta de comer?’.

«Antes era tudo sobre o jogo, agora é quase, espera um minuto! Eu não estava ali pela atenção; eu estava ali porque adorava jogar e sabia que podia ser melhor e estava muita focada em atingir os meus objetivos.»

«Quando estava no topo, senti-me ‘Ok, bem, ainda não acabei. Talvez ninguém tenha chegado aqui, mas eu consigo ver outro passo.»

Sobre empoderar outros através da sua história: 

«Percebi que estava a chegar a outras pessoas sem realmente saber: simplesmente através do jogo, através das minhas ações, sendo uma mulher jovem atrás de um sonho que talvez não fosse a coisa mais natural para uma rapariga da Suécia perseguir. A Suécia não é conhecida pelos golfistas, então acho que isso abriu portas e outras pessoas viram que o trabalho árduo compensa. É algo com o qual eles se podem relacionar em diferentes áreas.»

«Então eu aprendi a lidar com ela [a atenção]. Fez-me dizer ‘Hey, se eu consigo, qualquer pessoa consegue’. É só determinação, força de vontade, paciência e trabalho árduo. Senti que as vitórias falavam por mim porque fui eu que passei por elas.»

Sobre chegar a um nível lendário para as mulheres no golfe: 

«Não é só uma mudança de técnica e resultados imediatos. É uma mudança no estilo de vida. É um compromisso, e digo compromisso total, por isso tens de ser capaz de lidar com os altos e baixos.»

«Mas acho que é preciso ser realista: olhei para mim e soube que era capaz. Desde cedo, quando fui a número um, as pessoas achavam, na altura, que aquele era o meu fim, que era o fim. Mas eu cheguei ao topo e senti-me, ‘Ok, bem, eu ainda não acabei. Talvez ninguém lá tenha chegado, mas eu consigo ver outro passo.»

«Muitas pessoas disseram, ‘Ela não pertence aqui’.»

Sobre fazer história no PGA-Tour enquanto jogadora feminina:

«Quando a oportunidade [de competir em 2003 no Colonial] surgiu, não hesitei porque, na minha cabeça, não era para provar que mulheres podem jogar contra homens. Foi mais, ‘Ok, já fui número um durante vários anos, e quero continuar a encontrar formas de melhorar’.»

«Muitas pessoas disseram, ‘Ela não pertence aqui’ e ‘Ela está a ocupar o lugar de alguém’, e ‘Não vou jogar se ela jogar’, mas eu sempre tentei preocupar-me só com o que me dizia respeito. Eu fui convidada portanto vou fazer o melhor possível, não estou aqui para provar nada mais do que quero aprender convosco, e acredito que tive melhores anos depois dessa experiência.»

«Olhando para trás na minha carreira, acho que essa semana está no meu top três – não à conta da pontuação, porque eu não passei – mas porque eu saí com muito conhecimento sobre mim mesma: aqui, a rapariga tímida que costumava errar de propósito no clube está agora a jogar [contra homens]. Coloquei-me lá com uma intenção.»

«Eu fui uma mãe mais velha, por isso tinha muita experiência – não com crianças mas comigo mesma.»

Sobre começar uma família tarde na carreira:

«Tive muita sorte em conseguir ter uma carreira e depois uma família ao mesmo tempo. Eu fui uma mãe mais velha, por isso tinha muita experiência – não com crianças mas comigo mesma, e estava muito confortável a colocar essa parte de lado. Sempre foi tudo sobre Annika; agora é sobre eles e a minha família, e eu estava confortável com isso.»

Sobre preferir estar sozinha no desporto:

«Alguns jogadores são mais sociais e comunicativos, e vê-los sempre juntos nos balneários, mas esse é o estilo deles. É tão fácil ceder à pressão: toda a gente está a fazer isso, e eu não queria. Muitas vezes era mais fácil simplesmente fazer o que tinha a fazer porque eu era mais verdadeira comigo, em vez de tentar ser outra pessoa.»

Sobre uma meta particularmente marcante:

«Em 1995 eu fui Rookie of the Year. Primeiro que tudo, eu não sabia se alguma vez ia ganhar algum torneio de golfe, por isso nunca me imaginei com nenhum patrocinador de qualidade. De repente, a Rolex e eu construimos uma amizade e uma parceira. Obviamente, ser escolhida por alguém daquele calibre deu-me um boost de confiança, e fiquei muito orgulhosa de ser uma embaixadora. Para mim, pessoalmente, fiquei, ‘Wow, isto é validação’.»

Sobre fazer as pazes com a reforma:

«No final, para mim parece que subi o Monte Evereste. Eu estava no topo. Não havia mais para onde subir e foi ai que percebi que já não tinha a motivação ou o desejo – a fome de continuar; que percebi que tinha chegado ao máximo que conseguia ser.»

«Ficou mais difícil no fim quando, um ano, ganhei 13 torneios. Foi o meu melhor ano e lembro-me no Ano Novo de pensar no ano [seguinte] como, ‘Oh, 14 torneios… isso deixa-me exausta’. Não sou uma pessoa de ficar quieta, e vou continuar até não conseguir mais. Há outras montanhas que quero subir, mas tive de descer da minha montanha da competição e começar outros caminhos.»