Lindsey Vonn: Porquê Parar, Se Há Sempre Mais Para Conquistar?

Boa sorte para os obstáculos que se atravessarem no caminho da esquiadora. Fotos: © GTRESONLINE/ Cortesia Lindsey Vonn/ D.R.
Em várias indústrias e mundos, há um objetivo transversal: ser excelente. E essas grandes conquistas – através de trabalho dedicado e determinação para ser melhor – têm sido associadas à Rolex há gerações, o que torna a colaboração da marca com embaixadoras de várias áreas absolutamente certa. Em parceria com a Rolex, exploramos os percursos de vida de mulheres excecionais.

 

O adjetivo dura não chega para descrever Lindsey Vonn. Nas encostas, ela é aquela com os grandes troféus, mas não os conquistou facilmente. Aterragens difíceis, lesões demasiado teimosas, e até uma queda que levou a que tivesse de ser transportada de emergência de uma montanha nos Jogos Olímpicos de 2006, ameaçaram a sua carreira. (Depois da queda, Vonn regressou às pistas diretamente do seu quarto de hospital – ainda que qualquer outra pessoa provavelmente agradecesse o dia de descanso). Mas, de alguma forma, a esquiadora americana conquistou a maioria dos feitos mais aspiracionais do seu desporto. Medalhas olímpicas à parte (ela tem duas), Vonn quebrou o record de vitórias do Campeonato Feminino, somando 76 – o record global é de 86. e este ano tornou-se na primeira esquiadora da história a ganhar 20 Globos de Cristal, quando venceu o título mundial de downhill. Agora o seu objetivo é um prémio de uma corrida que ainda nem sequer existe: bater os homens nesses mesmo percurso.

Essa é uma das coisa mais especiais sobre Vonn: quando ela começa, o seu momentum é impossível de parar. Falámos com ela sobre resiliência, a importância da gratidão e como é que mesmo nos piores momentos o seu objetivo é continuar a lutar.

 

 

Sobre crescer nas pistas:

«Sempre adorei esquiar. Comecei a esquiar com o meu pai quando tinha dois anos e meio. Mesmo antes de conseguir andar, andava numa mochila com o meu pai enquanto ele esquiava. (O meu pai cresceu a esquiar, também competia e por isso sabia o que estava a fazer). Comecei a ir para campos de ski sem os meus pais quando tinha sete anos. Quando tinha nove anos, fui sozinha para a Europa, para um campo de ski, pela primeira vez e esquiámos nos glaciares. Sempre foi uma coisa que adorei. Adoro estar nas montanhas».

 

Sobre ter objetivos desde cedo:

«A minha mãe contou-me que, quando eu tinha seis ou sete anos, costumava desenhar imagens de mim própria, a ganhar corridas e onde escrevia “A melhor esquiadora de todos os tempos”. Não sei como é que me terei lembrado disso»·

 

Sobre o poder de ter um ídolo:

«Conheci a (esquiadora) Picabo Street quando tinha nove anos numa sessão de autógrafos numa loja de equipamentos de ski local. Foi ela que me inspirou a ser uma esquiadora olímpica. Quando a conheci percebi que aquilo era mesmo o que eu queria fazer. Queria ser com ela. Esperei três horas numa fila para a conhecer e estive com ela dois minutos. Foi como conhecer uma super-heroína. Ela foi quem me inspirou».

 

 

Sobre o seu momento A-ha:

«Quando tinha 11 anos competia contra os de 13 e 14 anos e ganhava. Foi uma situação única, porque obviamente eles eram mais velhos e nunca ninguém o tinha conseguido antes. Não percebi que isso era tão especial, até que fui aos Jogos Olímpicos Júnior e ganhei. Toda a gente falava disso. Senti que a idade não importava e que podia conquistar mais coisas. Mas sobretudo senti que ninguém me podia parar».

 

Sobre a importância de ter o melhor sistema de apoio:

«Sempre quis estar nos Jogos Olímpicos, mas há uma grande diferença entre dizer que o queremos fazer e ser mesmo a nossa carreira. A minha família inteira mudou-se para o Colorado (de Minnesota) para que eu pudesse competir. Sou a mais velha de cinco irmãos, e todos eles também começaram a competir, mas não ligavam assim tanto. Toda a minha família fez sacríficios para que eu pudesse esquiar».

 

 

Sobre competir durante a infância:

«Tive aulas em casa durante dois anos. Nunca fui ao baile de finalistas. Não tinha muitos amigos quando era mais nova, porque ia muito pouco à escola, e quando estava a competir era sempre com crianças mais velhas do que eu, por isso nunca estava completamente integrada. Também tinha aparelho, uma permanente e franja ao mesmo tempo, e isso não é uma boa forma de fazer amigos! Os meus colegas não sabiam bem o que é que eu estava a fazer. Ficavam do género, “espera, porque é que te estás a ir embora?” e eu respondia “Tenho de ir competir.” e eles retorquiam com um “Mas, porquê?” Ninguém me entendia realmente. E não tinha muitas pessoas com quem pudesse falar sobre isso, mas isso não me chateava. Estava focada no meu caminho».

 

Sobre decidir apostar tudo na carreira:

«Perguntei ao meu pai “quero ir aos Jogos Olímpicos em Salt Lake City,, como é que chego lá?” e ele disse-me tudo o que precisava de saber: “Tens de ter sucesso a vários níveis. Tens de ganhar, aqui, aqui e aqui e tens de entrar na equipa com a tua idade.” Foi sempre claro para mim quão importante (esta carreira) era.

Estava em competições internacionais, quando tinha 11, 12 e 13 anos. Depois participei nos Jogos Olímpicos quando tinha 17. Há uma corrida em Itália, onde todas as anteriores vencedoras tiveram sucesso nos campeonatos mundiais e nos Jogos Olímpicos, por isso quando a ganhei pensei, “Ok está tudo a compor-se”».

 

 

Sobre ir até ao limite:

«É preciso manter a fome da vitória e nunca estar satisfeito. No momento em que estás satisfeito, é quando a tua carreira acabou. Quero ser melhor. Quero fazer mais. Quando ganhei o meu primeiro título overall, toda a gente dizia que não ia conseguir conquistá-lo de novo, porque era nova e ia ficar satisfeita. Mas queria ganhar mais, e isso sempre me ajudou a manter o sucesso e a querer mais. Há sempre um objetivo maior, há sempre alguém que fez mais do que eu, por isso porquê parar?».

 

Sobre o seu maior medo:

«Falhanço não é a palavra certa, mas houve uma altura perto dos Jogos Olímpicos de 2006 em que não apreciava realmente as coisas e os momentos como devia, e isso tornou-se o meu maior medo – chegar a um ponto em que não aprecio as coisas e perco esse sentido de urgência. Não tenho medo de andar mais rápido ou de cair. Isso faz parte do desporto. Quer dizer estamos a descer uma montanha a velocidades alucinantes, claro que às vezes vamos cair».

 

 

Sobre treinar com as equipas masculinas:

«Treino com os homens muitas vezes, e eles são inerentemente melhores que as mulheres a esquiar, porque são mais fortes e maiores, por isso podem ser mais rápidos. Por isso tento imitá-los e espero estar ao nível deles. Espero um dia poder competir contra eles.

Treinar com eles é super divertido. Adoro. É diferente quando podemos ver alguém que esquia mais rápido e ver as suas linhas (no mesmo percurso onde esquias) e ver a quantidade de poder que criam – entusiasma-me porque consigo ver o que é possível e isso impulsiona-me a ser melhor. Estive no Chile recentemente com as equipas masculinas americana e norueguesa e falei com eles sobre as suas linhas, sobre o que estão a fazer nas pistas, sobre o que o seu equipamento está a fazer. Aprendi com eles. Devido a tudo o que já alcancei na minha carreira, sinto sempre que sou respeitada pelos esquiadores masculinos. Consigo acompanhá-los, sou melhor que alguns deles e eles respeitam isso».

 

 

Sobre atingir um marco na carreira:

«Mesmo antes dos Jogos Olímpicos, em 2009, juntei-me à família Rolex. Foi uma honra tremena. Sabes que quando estás coma  Rolex, isso significa que está no pico, que és um atleta de elite. Foi incrível. A Rolex tem diso patrocinadora dos Jogos Olímpicos júniores desde que era miúda. E isso foi uma coisa que sempre soube: quando tens um patrocínio da Rolex isso significa que conseguiste. És intemporal, transcendeste o desporto e tornaste-te um ícone».

 

 

Sobre recuperar do pior:

«Os Jogos Olímpicos de 2006 foram super importantes para mim, porque caí e achei que tinha partido as costas. Aterrei de costas num salto e tinha dores terríveis. Naquele momento pensei que era impossível recuperar daquilo. Fui levada de helicóptero das montanhas e fizeram-me imensos exames no hospital, enquanto eu só pensava “ok, acabou”. Chorei de forma incontrolável, enquanto me preparava para nunca mais poder esquiar. E quando os resultados chegaram, a primeira coisa que pensei foi “Ok, quero voltar para as montanhas agora, quero ter outra oportunidade”.

Quase fugi do hospital. Aliás tentei escapar ainda vestida com a bata e as meias, quando me apanharam mesmo antes de entrar no elevador. Estava em Itália e ninguém falava inglês. Não tinha telefone, mas pensei “de certeza que a minha mãe está na entrada do hospital e eu tenho de voltar para as montanhas”. Andava pelos corredores do hospital, quando duas senhoras italianas mais velhas me apanharam e me levaram de volta para o quarto. Quando a minha mãe finalmente me encontrou eu disse-lhe: “Temos de voltar AGORA. Tenho de correr”. (Nota: Vonn lesionou-se no cóccix e dois dias depois da sua hospitalização, voltou às pistas e competiu em quatro das suas cinco provas.)

Esse incidente fez-me perceber o quanto gosto daquilo que faço e levou-me a constatar que pode acabar a qualquer minuto. Isso mudou completamente a minha perspectiva».

Sobre a importância do descanso e da recuperação:

«Ouvir o meu corpo e entendê-lo é importante. É difícil sentirmo-nos bem, quando estamos expostos a demasiado stress. Mas eu sei daquilo que preciso: sei que preciso de uma massagem quase todos os dias, sei que tenho de por gelo no meu joelho, que tenho de usar o rolo de espuma, que tenho de fazer banhos quentes. Há certas coisas de que preciso para me manter no meu melhor, e faço tudo o que posso para descansar, porque caso contrário não posso fazer o meu trabalho. Tenho um enorme respeito por aquilo que o meu corpo pode fazer.»

 

 

Sobre retribuir:
«Sinto uma extraordinária sensação de dever cumprido, sempre que consigo inspirar uma criança que está agora a começar. Quando volto a encontrar uma rapariga que conheci há cinco anos e que nesse momento me diz o quanto a inspirei e me conta o quanto está a estudar ou treinar, isso traz-me tanta alegria. Mesmo se só passarmos 30 segundos com uma criança, ela provavelmente vai lembrar-se para o resto da vida, da mesma forma que aconteceu comigo quando conhecia a Picabo Street. Por isso eu sei, na primeira pessoa, o impacto que temos enquanto modelos a seguir.

 

Sobre encontrar um escape nas montanhas:
«Sempre senti que, independentemente do que estivesse a acontecer na minha vida, podia estar nas montanhas e saber quem sou. É tão tranquilo, especialmente quando somos os primeiros a chegar e está tudo em silêncio. Espero esquiar (competitivamente) por mais 2, 3 ou quatro anos – depende do meu corpo. Mas sei que, depois da competição acabar, vou esquiar para sempre».