Alba Baptista e Bruna Quintas Falam Sobre Quebrar Tabus na Televisão

Alba Baptista e Bruna Quintas interpretaram um casal homossexual na série «Filha da Lei». Por: Joana Moreira -- Imagens: © D.R.

Dizer que vão dar que falar seria pouco. Alba Baptista e Bruna Quintas são dois nomes da vaga de novo talento da representação portuguesa. Na série da RTP Filha da Lei, vestiram a pele de um casal adolescente apaixonado. Duas mulheres, jovens – Bruna tem 19 e Alba tem 21 anos – que têm sido alvo de rasgados elogios pela maturidade e talento. Foi a olhar para o futuro que falámos com as duas atrizes sobre a necessidade de quebrar tabus que ainda ultrapassam o pequeno ecrã.

O que é que representa para vocês interpretar estes papéis? 

Alba Baptista: Foi-me dado o espaço de realmente construir esta personagem com tempo e cuidado. Isto significa que me deram a oportunidade de fugir de estereótipos que tanto quis evitar. Para mim, este papel representa progresso no sentido de retratar a diversidade sexual como uma normalidade dentro da nossa sociedade.

Bruna Quintas: Para mim foi um bom desafio. Não é muito comum ter a oportunidade de interpretar estas personagens em televisão e cinema, por isso assumi este desafio e esta interpretação com grande responsabilidade e dei o meu melhor. Saí completamente do registo de representação a que o público se habituou a ver-me fazer. Confiei totalmente na equipa de produção e no realizador Sérgio Graciano, fiz o meu trabalho de preparação, fazia sentido, por exemplo, alterar completamente a imagem e eu não hesitei. Trabalhei com colegas muito generosos e orgulho-me muito por ter tido o privilégio de ter integrado o projeto Filha da Lei.

«Este casal fictício ajudará a habituar
o espectador a não limitar uma personagem
homossexual a apenas essa característica.»

 

Que importância é que acham que pode ter este casal para acabar com a discriminação e homofobia em Portugal?

A.B.: Tanto a minha personagem como a da Bruna assumem um tópico que infelizmente ainda é considerado um tabu nos ecrãs portugueses. No entanto, acredito vivamente que este casal fictício ajudará não só a reduzir o preconceito, como também a habituar o espectador a não limitar uma personagem homossexual a apenas essa característica.

B.Q.: A televisão tem um grande impacto na sociedade e tem de ter a responsabilidade também de informar e educar. A série esta muito bem escrita, muito bem feita, está real, a forma como eu e a Alba interpretamos este casal foi também muito verdadeira e a equipa de realização e produção merecem também uma vénia porque deram o espaço e direcionaram sempre o nosso trabalho nesse sentido. Se esta personagem puder ajudar a sermos mais tolerantes uns com os outros e a respeitarmos a orientação sexual de todos sem discriminação, perfeito!

 «Um amor correspondido
deve ser vivido em pleno e à frente de todos.»

 

É raro ver representada a homossexualidade na televisão, sobretudo com personagens tão jovens e, além disso, mulheres. Como é que decidiram aceitar este papel e de que forma é que acham que ele pode impactar os mais jovens? 

A.B.: Quando fui informada que iria interpretar o papel de uma jovem bissexual fiquei radiante. Senti a responsabilidade de fazer justiça à história da Sara. Tinha como objectivo, entre outros, dar uma voz não só aos jovens homossexuais, como também àqueles que  se encontram no caminho da descoberta e sobretudo da aceitação da sua sexualidade.

B.Q.: Sim, de facto é raro. Mas não deveria ser. É a realidade, faz parte da sociedade, por isso estes aspectos e outros deveriam ser retratados com mais ou menos incidência nas séries, nas novelas, no cinema, porque no teatro este tema tem vindo a ser abordado. No entanto, tenho de dizer que parece-me que as coisas estão a mudar. O meu agente falou-me nesta personagem e eu quis este papel, fiz casting, lutei por ele! Espero que este trabalho e esta personagem possa ajudar muitas jovens que se sintam reprimidas porque um amor correspondido deve ser vivido em pleno e à frente de todos, e sobretudo que se quebrem alguns preconceitos nas várias gerações e que se aceitem as diferenças, que as amem, respeitem e as considerem de igual forma que consideram uma relação entre um casal heterossexual.

Como é que tem sido o feedback?

A.B.: Para além do positivo. Tenho recebido mensagens a elogiar a personagem e a sua originalidade. Tenho-me sentido sensibilizada com todas elas, mas as que me marcaram especialmente foram aquelas de jovens, maioritariamente raparigas, a agradecer por dar uma voz e força aos adolescentes que ainda sentem insegurança a cerca da própria sexualidade. Confesso que uma ou outra me deixou com lágrimas nos olhos.

B.Q.: Alguns dizem que tive muita coragem, mas eu penso que coragem teve a RTP e a Stopline, eu só tive o grande privilégio. Os colegas e o público tem felicitado o meu trabalho e essa é a grande, grande recompensa. Na faculdade e na rua o público que acompanha a série felicita-me pela minha interpretação e são muito carinhosos como sempre o foram.

«Há risco em abordar estes assuntos porque
podem não ser tão bem recebidos pelo público
e as audiências têm um grande peso nestas decisões.»

 

Enquanto atrizes, porque é que acham que há poucos papéis que explorem a diversidade em matéria de identidade de género e sexualidade?

A.B.: A comunidade LGBT ainda representa um tabu na nossa sociedade, com muita pena minha. Daí ainda ser um tópico sensível para se assumir mais no ecrã.

B.Q.: Vê-se algumas coisas que abordam apenas as situações mais excêntricas e que depois o público de alguma forma generaliza e isso não é bom porque não ajuda a retratar a realidade nem a quebrar o preconceito e o estigma. Na minha opinião já existiram tentativas em projetos da SIC da TVI e da RTP, mas depois faltou a coragem para se ir a fundo. Há risco em abordar estes assuntos porque podem não ser tão bem recebidos pelo público e as audiências têm um grande peso nestas decisões. Também penso que nem sempre os atores estão disponíveis para fazer estas personagens por terem receio da opinião pública, de «ficarem marcados», e é talvez neste sentido que muitos me dizem que tive muita coragem. Na minha experiência pessoal eu penso que até me respeitam mais enquanto atriz após esta personagem. Até agora não senti falta de trabalho, pelo contrário! Penso que as coisas estão a mudar a um grande ritmo.