Amnistia Internacional Reinventou a Cena Final d’«A Bela Adormecida»

O conto de fadas serviu como ponto de partida para consciencializar o público sobre o consentimento. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R.

Um beijo apaixonado entre o príncipe e a personagem principal da história, uma donzela frágil e indefesa que é salva por ele, é a cena final da maioria dos contos de fadas da Disney. Mas quando essa princesa está inconsciente é aceitável que isto aconteça? Foi essa a questão que levantou o gabinete canadiano da Amnistia Internacional, que decidiu pôr em causa a versão clássica d’A Bela Adormecida, recontando a história, num vídeo que aborda a questão do consentimento em casos de assédio e abuso sexual, adaptado à atualidade.

Nesta curta de animação, com a premissa Sem consentimento, não há conto de fadas, vemos o príncipe encantado a chegar perto da princesa, deitada e inconsciente – segundo a história, à espera que alguém a beijasse, de forma a quebrar a maldição lançada pela bruxa má -, e a beijá-la na boca. Apesar de esta não acordar, o príncipe continua, apalpando-a entre as pernas. Neste momento, um mocho chama-o à atenção e o príncipe, apercebendo-se da razão pela qual o animal o interpelou, desculpa-se dizendo que ele é um príncipe e que já tinha estado com a princesa anteriormente.

Daqui o vídeo levanta inúmeras questões sobre a relevância do consentimento, relativas à cultura de assédio e abuso sexual: foca-se um suposto interesse anterior, a posição do agressor, e ainda a condição em que a vítima se encontra. Neste minuto e dez segundos de vídeo são também postas em causa as ideias estereotipadas que se formam através dos finais habituais destas histórias infantis.

Numa altura em que o movimento #MeToo parece indissociável da atualidade, a Amnistia Internacional alerta o público, num tom provocatório e humorístico, para esta problemática, adaptando um conto popular como A Bela Adormecida à realidade dos nossos dias. A organização aproveitou ainda a partilha do vídeo no Facebook para sensibilizar para o facto de que apenas nove países na Europa reconhecem, à luz da lei, que sexo sem consentimento é efetivamente abuso sexual.