Catherine Deneuve e Mais 99 Mulheres Insurgem-se Contra o #MeToo

A polémica carta aberta foi publicada no jornal francês Le Monde. Por: Vítor Rodrigues Machado -- Imagem: © D.R.

Dois dias depois da passadeira vermelha dos Globos de Ouro se ter vestido de negro (em jeito de protesto), os casos de assédio e abuso sexual voltam a estar na ordem do dia. Contudo, e contrariamente ao que nos habituamos a ver nos últimos tempos, nada tem a ver com a revelação de uma nova situação denunciada por uma vítima, mas antes por uma carta aberta publicada no Le Monde, assinada por Catherine Deneuve e outras 99 mulheres do mundo académico e das artes, que se insurgem contra o movimento #MeToo, e que tem como título «Defendemos a Liberdade de Importunar, Indispensável à Liberdade Sexual».

No texto publicado no jornal francês, que se insurge contra o movimento que foi considerado personalidade do ano pela revista Time, começa-se por ler «A violação é um crime. Mas seduzir alguém insistentemente, ou inconvenientemente, não é um crime, nem o galanteio é uma agressão machista», uma afirmação controversa.  O texto continua para: «O #MeToo levou até à imprensa e às redes sociais uma campanha de denúncias e acusações a indivíduos que, sem terem a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente ao mesmo nível dos responsáveis por crimes sexuais (…) os homens são sancionados no exercício da sua profissão, obrigados a demitir-se, etc., quando tudo o que fizeram de errado foi terem tocado num joelho, tentado roubar um beijo, falado sobre coisas “íntimas” num jantar de negócios, ou enviado mensagens sexualmente explícitas a uma mulher, que não retribuía a atração».

Apesar de reconhecerem que o caso de Harvey Weinstein foi importante para criar «consciência legítima da violência sexual contra as mulheres, particularmente no local de trabalho, onde alguns homens abusam do poder», afirmam que «Como mulheres, não nos revemos neste feminismo que, para além de denunciar o abuso de poder, transforma-se num ódio aos homens e à sexualidade».

 

A resposta à carta  

Como seria de esperar (especialmente tendo em conta tratar-se de um assunto tão sensível quanto polémico), já houve uma reação por parte de um grupo de 30 feministas francesas. Também em carta aberta, descrevem este tipo de comportamento como usual «Assim que a igualdade avança um milímetro sequer, almas bondosas alertam-nos imediatamente para o facto de que arriscamos cair em excesso» acrescentado «De forma geral, assumem a forma de ‘é verdade, é claro, mas …’. (…) Esta carta é como aquele colega constrangedor, ou aquele tio cansativo que não entende o que se está a passar ». Contudo, e sem deixar passar em branco algumas das afirmações, no texto, esclarecem que «aceitar insultos contra as mulheres significa permitir a violência (…) Isto não se trata de uma diferença de grau entre violar e assediar, mas de natureza. A violação não é ‘sedução aumentada’ (…) Temos o direito fundamental de não ser insultadas, assobiadas, atacadas, violadas. Temos o direito fundamental de viver as nossas vidas em segurança».

Caroline De Haas, feminista e membro do Partido Socialista francês, é uma das subscritoras deste texto que termina com a seguinte citação «Os porcos e os seus aliados estão preocupados? É normal. O seu velho mundo está a desaparecer. Muito devagar – muito devagar – mas inexoravelmente. Algumas reminiscências empoeiradas não vão mudar nada, nem quando são publicadas no Le Monde».