Esta Exposição Quer Fazer-nos Pensar Sobre o Que é, ou Não, Cool

O que foi e o que é cool? A exposição Cool ain’t cool anymore dá as pistas para as respostas. Por: Joana Moreira -- Imagens: © D. R. e Vitorino Coragem

Usou durante anos uns sapatos que hoje odeia, e aquelas calças camufladas que tem escondidas no armário, subitamente, tornaram-se inexplicavelmente cool. É pouco provável que nunca tenha passado por um cenário similar. Mas o termo, esse enigmático sentido de cool não é simples de explicar.

O que foi cool? O que é cool? É sobre estas questões que se debruça Cool ain’t Cool Anymore, um programa de exposições que «procura questionar e repensar uma série de símbolos, ideias e pensamentos que já foram cool, mas que já estão ultrapassados» e que inaugura este sábado na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa .

«Surgiu-me este tema porque é uma coisa que está muito presente na minha vida, eu nasci nos anos 90, que é agora o que é cool. O que está na Moda agora é o que se vestia nos anos 90. Comecei a perceber que havia este revivalismo e é um tema que me interessa também a outros níveis sem ser a Moda, mas também em questões sociais, isto é, comportamentos que eram cool, que eram fixe há alguns anos, expressões que eram engraçadas dizer, para fazer piadas, que agora começam a deixar de ser cool», explica Marta Espiridião, curadora do programa, que começa com uma exposição individual de Rita GT.

Embora conhecesse o trabalho de Rita há muito tempo, do qual era grande admiradora, Marta só recentemente conheceu pessoalmente a artista. «O trabalho dela nunca sai destas questões sociais, que lhe são muito importantes, e muito políticas também», explica, justificando a escolha para abrir este ciclo.

 

Acção doméstico-feminista ou estudos sobre a cerâmica portuguesa é o título da mostra da artista plástica e performer portuguesa, cuja carreira já inclui presenças em eventos como a Bienal de Lagos, na Nigéria. Em Lisboa, vai ser possível ver duas obras suas. «Tenho um vídeo, que fiz em 2007 na altura em que os discursos sobre feminismo e ativismo eram super uncool, não eram nada bem-vindos», conta à ELLE, «e mais uma fotografia feita agora em 2018. Existe aqui uma reinterpretação do vídeo e do corpo de trabalho que tenho vindo a desenvolver. Essa fotografia associada ao vídeo traz essa chamada e reinscrição do trabalho.»

Mais de uma década depois, o que é ser cool? «Na verdade eu acho que este conceito é muito subjetivo, por isso o meu trabalho enquadra-se no sentido em que tenho tentado explorar um pouco este sentido da periferia». Tendo como base Viana do Castelo, Rita junta-se a outras artistas para trabalhar nesta ideia: «Temos estado um pouco a falar sobre estas questões de discriminação através do sotaque, de sermos periferia de um país periférico, porque as pessoas esquecem-se que Lisboa e Portugal é periférico também, por isso isso também reúne certas condições para supostamente ser “uncool“. Mas, na verdade, acabamos por criar uma atitude e um carisma. E na verdade eu acho que nos temos um trabalho super cool, na periferia (risos)»

Falar sobre discriminação é cool?

«Nos tempos acelerados que vivemos, em que existe uma parafernália e uma distribuição de informação completamente rápida e desenfreada que às vezes nem conseguimos ter reflexão sobre isso, existe uma subversão sempre associada», lembra a artista, culpando em parte «as estratégias de marketing e publicidade que se apropriam de conceitos super importantes e fundamentais e subvertem-nos em estratégias de vendas e publicidade. No caso do ativismo e do feminismo está a acontecer isso».

Numa altura em que assistimos ao uso e abuso da palavra feminismo – de discursos a t-shirts, nem sempre é fácil distinguir o que está certo. «De facto é um assunto super pertinente, estamos a lutar contra imensas desigualdades, mas existe sempre esta contracorrente dessa apropriação e descontextualizacao desses movimentos, que acontece não só com o feminismo, mas também com o racismo, sexismo e todos esses movimentos de acentuar as desigualdades sociais», diz.

Mas não beneficiaram estes movimentos do «ser cool»? «De certa maneira existem sempre atitudes cool de pessoas cool que abraçam estas causas e ajudam a que estes movimentos tenham uma dissminação mais abrangente, mais geral, consegue-se infiltrar, sair da academia e das artes visuais apenas e de movimentos mais académicos para chegar a um público mais lato. Mas obviamente que isso implica toda uma contracorrente, como as coisas que estão a acontecer nos Estados Unidos, no MeToo e Time’s Up, e depois percebes que existem também ali apropriações e as atrizes europeias vêm fazer uma espécie de contracorrente…», lembra Rita. Quanto à palavra em si, «existem muitos mal-entendidos associados ao termo feminismo, e eu acho que são essas coisas que têm de ser faladas e abordadas. Eu tento fazer isso de uma perspetiva subjetiva que é através de um trabalho visual.»

Programa termina com exposição coletiva 

Depois de Rita GT segue-se uma exposição de Diogo Henrique Martins e, finalmente, uma exposição coletiva. «Vai ser uma exposição com vários artistas, e gira um bocadinho em volta das questões dos discursos de ódio e de invisibilização de certas pessoas ou de certas coisas, nomeadamente à volta de questões relacionadas com o racismo, com o machismo, com a homofobia, anda um bocadinho aí à volta», explica a curadora. «Vai ser uma série de obras de vários artistas, portugueses e não só, que abordam e que tentam de certa forma responder e inverter estas questões que são muito problemáticas que ainda existem e que agora começam a ser cada vez mais vistas como o “não cool“».