Joana Baptista Fala Sobre o Novo Álbum dos Galgo e a Música Como Arte

A provar que a arte da música sobrepõe-se a estigmas, falámos com Joana, a baterista da banda portuguesa. Por: Joana Moreira -- Imagens: © D. R.

No futuro vê «muito trabalho», um verão cheio e «coisas novas». Joana Baptista, baterista dos Galgo, faz trabalho de adivinhação sobre o que aí vem. Uma coisa é certa: vem disco novo. Ou melhor, já esta aí. Quebra Nuvens, o segundo LP da banda, chega às lojas – e à internet – esta segunda-feira e é a sonoridade portuguesa que promete entrar de imediato na nossa lista de reprodução.

Falámos ao telefone com a música que promete continuar a trabalhar «melhor e mais rápido», «olhando mais para o que vem a seguir».

És a Joana dos Galgo. Pode-se assumir que és esguia e que gostas de correr?

(risos) Gostar de correr não, essa parte não. Ser esguia… depende da altura.

Qual é a origem do nome? 

Há varias perspetivas, o nome surgiu em várias alturas por motivos diferentes.

Não houve então uma espécie Aha moment

Não, até porque houve um período de adaptação, andávamos há muito tempo para escolher um nome, não foi fácil.

Como é que chegaram então a Galgo? 

Isto vem de um verbo, que é galgar, que significa saltar e vem daí. Havia pessoas que falavam que a música é meia saltitona. Portanto foi através disso.

Não tem, então, nada a ver com o animal.

(risos) Depois teve. Lá está, vários motivos.

Ou seja, vocês criaram as vossas sonoridades e depois o nome é que derivou disso. 

Exato, exatamente. Antes já tínhamos projetos e nomes diferentes, mas nunca era nada audível, vá.

Falas de um antes. Como é que foste parar à música?

Primeiro comecei a aprender guitarra, depois comecei a ter aulas de bateria, e foi a partir daí que comecei a falar com mais pessoas sobre música e acabei por encontrar estes três meninos.

«[A voz] é simplesmente mais um instrumento.»

 

É pouco usual ver mulheres a estudar bateria. Como é que de repente isto surgiu?

O meu irmão mais novo começou a aprender era muito pequeno e surgiu porque eu já estava a ganhar o bichinho pela música, houve um professor de bateria que foi para a minha rua. O meu irmão começou a ter aulas e depois eu pedia-lhe para ele me ensinar as coisas que ele ia aprendendo. Até que chegou a uma fase em que ele desistiu (risos) e eu aproveitei e fui ter aulas.

O que é que ouvias nessa altura? 

System of a Down e Rage Against the Machine, eram coisas um bocadinho mais pesadas. Isso também fez despoletar esse gosto pela bateria, porque comecei a reparar mais nos instrumentos…

Li numa entrevista vossa que não gostavam de restringir a vossa música no pós-rock. Onde é que colocarias os Galgo? 

Javardo-dance-rock (risos). Temos as duas vertentes e tentamos misturar um bocado e acho que é muito bom haver essa dicotomia para quebrar um bocado o mood no concerto: nós conseguimos manter as pessoas pela parte «dançável» mas também temos a parte, que nos dá muito gozo, mais pesada, que é mais introspectiva, etc. Por isso não é bem um pós-rock, que é mais contínuo e se sente na mesma vibe.

São uma banda predominantemente instrumental. Mas Bambaré (uma das músicas do novo álbum), por exemplo, tem uma componente vocal já maior do que o normal. É uma coisa na qual andavam a pensar?

Nunca é nada que nós pensamos muito. Claro que ouvimos muitas pessoas a dizer que era fixe termos mais voz, mas sempre foi uma componente que nós quisemos adicionar caso achássemos que ficava bem. E não só por ter. Para nós não faz grande sentido, nós não temos propriamente formação, nem técnica, suficiente para fazer grandes arranjos vocais. É simplesmente mais um instrumento.

Cantar é algo que queiras explorar? 

Eu canto. Neste album canto, faço vozes, vá, em três músicas, acho eu.

E manténs essa visão da voz como mais um instrumento.

Sim, é mais um instrumento, se achar que uma melodia ali fica bem.

Todas os títulos das canções no primeiro álbum Pensar Faz Emagrecer têm apenas uma palavra. Tu também tens esta economia no dia-a-dia, também és uma mulher de poucas palavras? 

(risos) Não sou uma mulher nada de poucas palavras, venho da área de comunicação, por isso não é bem esse o motivo. Aliás, nenhum de nós é de poucas palavras. É mais porque para nós é sempre complicado arranjar nomes – e mais ainda que saiam fora do normal. (…) É engraçado que as pessoas às vezes vão pesquisar o significado das palavras e comentam connosco. Acaba por ser um jogo, um dicionário novo.

Pensar Faz Emagrecer é um nome e tanto. Houve pressão para chegar a um novo título de álbum?

Não propriamente, mas todas as bandas acho que fazem isso que é pensar num nome que seja forte, que em termos de comunicação funcione, para por as pessoas curiosas e para ligar também a um conceito. Este álbum foi muito isso, um conceito que está por detrás da história que queremos contar.

E este Quebra Nuvens foi um quebra-cabeças ou chegaram lá rápido? 

(risos) Foi um quebra-cabeças. Foi difícil de atingir, tanto para as músicas como a criar este conceito. Foi complicado, deu muito tempo e trabalho. Foi um verdadeiro quebra-cabeças.

«Isto [a música] é arte, por isso cada
um ocupa o papel que quer.»

 

Qual é que foi o último concerto que foste ver e de que gostaste mesmo?

Fui ver Metronomy, quando eles vieram cá, não me lembro há quanto tempo foi. Gostei porque é uma banda que acompanho há muito tempo e a dinâmica de concerto é boa. Foram espetaculares, no início rebentaram logo com não sei quantas músicas de seguida, teve muito poder.

Curiosamente Metronomy tem uma mulher na bateria [Anna Prior], mas é algo raro. Porque é que achas que não é mais comum? 

Não sei dizer. É uma questão que, vou-te ser sincera, espero que comece a desparecer. Quando me perguntam fico um bocado sem saber o que dizer porque acho que é uma coisa normal como outra qualquer. Acho que uma pessoa gosta daquilo, quer aprender, e aprende e toca. Ou seja, isso não tem de estar diferenciado por género nem ser um fator de avaliação diferente. As pessoas são diferentes. Em termos de género não vejo qualquer tipo de motivo para que isto seja…

Um impedimento?

Sim, vejo a coisa tão natural. Acho que isso está a desaparecer, mas há uns anos havia muito um preconceito atrás disso, tal como há um preconceito das mulheres a conduzir, ou como havia das mulheres a trabalhar. São tudo barreiras que estão a ser quebradas e está na altura em que toda a gente faz aquilo que bem lhes apetece sem ter essas diferenciações de género, estatuto social, whatever.

É uma questão que tem sido muito falada nos últimos tempos, com o que aconteceu em Hollywood.

É um impacto da novidade. Espero que isso sinceramente passe para passar a ser uma coisa normal. Às vezes até recebi alguns comentários que eu ficava mesmo (suspiro)… Nem é o «ah, o concerto correu bem» ou «tocas bem», era o «estava à espera que uma rapariga tocasse mal bateria, mas tu até dás uns toques» (risos). Para mim sempre foi um bocado esquisito.

O «és boa para mulher» ainda é algo que existe? 

Sim, ainda é uma cena que acontece, infelizmente. É uma coisa que surge. Eu tento combater um bocado essa questão, mas eu própria fico um bocado sem reação, porque às vezes só me apetece virar costas e ir-me embora.

Achas que isso se resolvia com mais mulheres bateristas?

Eu acho que as pessoas fazem aquilo que querem. Não acho que se possa sequer medir. Isto é arte, por isso cada um ocupa o papel que quer e faz o que quer. Nem é uma questão disso, é mais a maneira como as pessoas olham para as coisas e para a música. Não metendo esse tipo de fatores. Gostou-se do concerto, gostou-se. Se o outro era isto ou tem o cabelo mais curto, ou se é morena, acho que isso é um bocado… irrelevante. Irrelevante para a música.