Entrevista: Steffi Doms, Um dos Grandes Nomes da Cena Eletrónica Hoje

Depois daquele que é o seu album mais espiritual de sempre, Steffi não tem nada a provar. Por: Joana Moreira -- Imagens: © Stephan Redel

Para os que respiram música eletrónica, Steffi Doms, ou simplesmente Steffi, é um nome de reconhecimento imediato. A DJ e produtora tem mais 20 anos de carreira e uma vida dupla: passa metade do tempo a sonorizar a noite de Berlim – é residente no Panorama Bar, do clube Berghain – e, no tempo restante, vive pacificamente na zona interior de Portugal.

A atuação no Lisboa Dance Festival, este sábado, foi o pretexto perfeito para falar com a artista sobre música, redes sociais e a importância de ter objetivos.

Quando é que percebeu que, além de ser DJ, também queria produzir?

Comecei a comprar equipamento para aí em 2000 por curiosidade, para experimentar. Produzir não foi uma coisa séria até 2008 quando me pediram para produzir uma faixa para o Panorama Bar mix CD, da Tama Sumo. Depois deste primeiro lançamento fui motivada pela Ostgut Ton [editora de música] para me focar mais e mais em produzir.

Ser DJ já não era desafiante? 

Uma coisa não exclui a outra. Quando tens um fascínio por música, acho que não te interessa só passar música e reunir discos. Ser DJ e produzir música podem coexistir lado a lado e sempre fui uma pessoa com muitos objetivos. Quando finalmente encontrei o meu flow, e havia muita confiança da parte da Ostgut Ton, senti-me muito motivada a explorar este mundo da produção.

O que é que a inspira a criar nova música?

Fazer coisas que nunca fiz antes e atirar ao ar as regras. Atirar-me de cabeça e ver o que acontece.

Falando do World of the Waking State, como é que encarou este novo álbum, e este afastamento da dance music?

Consigo perceber que muitas pessoas categorizem este álbum como um «álbum para ouvir» acima de tudo. No geral, está mais inclinado para um som electro IDM (Intelligent Dance Music) experimental. Sempre houve pequenos sinais destes dois géneros no meu segundo álbum, Power Of Anonymity, e foi uma evolução natural para este terceiro álbum ir mais nessa direção. Para os meus dois primeiros álbuns tinha ideias muito específicas sobre som e género e desta vez afastei-me de tudo isso e atirei-me de cabeça por completo. A única coisa que era de facto importante para mim, durante toda a fase de escrita, era não me restringir com a batida ou com o facto de o disco ter necessariamente que ser orientado para uma pista de dança. Quis fugir dos clássicos e típicos drum computers como os da Roland, e usei muitos drum synths (sintetizadores) para criar os meus próprios sons, e isso teve muita influência na personalidade global do álbum.

Quanto tempo é que demorou a produzi-lo? 

Parei de viajar e trabalhei seis semanas sem parar no meu estúdio, onde fazia duas sessões por dia. Depois de reunir todo o material demorei cerca de seis meses em pós produção para finalizar o álbum.

«Sempre fui uma pessoa com muitos objetivos.»

 

O que é que é a motiva para entrar em novos projetos?

É um feeling que começa a ferver dentro de mim e a dado ponto sei que tenho de parar de viajar, fechar-me no estúdio e escrever música nonstop para a tirar do meu sistema. Acho difícil produzir muita música durante períodos em que faço muito trabalho de DJ, portanto acabo por simplesmente ouvir a minha voz interior.

A música que passa acaba por influenciar a sua própria música?

Acho que acaba sempre por influenciar de alguma forma, mas também tenho muitos discos em casa que não passo em discotecas. Tenho um gosto em música muito variado e hoje em dia não penso tanto na pista de dança quando estou a escrever.

Acha que há uma certa pressão para estar constantemente a inovar? 

A mim surge-me de forma natural, gosto de ir até aos meus limites e de definir novas metas, não sei se para os outros isto é propriamente inovar, mas eu tento sempre ter um novo barco no horizonte para o qual quero nadar.

Neste género de música, há limites para a inovação?

Essa é uma pergunta muito interessante! Estamos habituados ao género «música eletrónica» desde, vamos dizer, o início dos anos 70 e, graças à tecnologia, hoje é possível fazer tanta coisa e há tanta coisa que já foi feita. Não é assim tão fácil passar um género musical para um outro nível. Muitas vezes é preciso uma combinação de múltiplas alterações e movimentações na sociedade para gerar um verdadeiro momento de mudança.

Como é que escolhe onde atuar?

Tenho tendência a trabalhar muito com as mesmas pessoas todos os anos, com base em boas experiências e entendimento mútuo. Se um novo club, recinto ou festival me faz um pedido, eu olho para os alinhamentos anteriores e a vibe geral para ver se me consigo associar e à música que eu passo com o conceito.

Enquanto artista, qual é a chave para manter longevidade? 

Manter-me fiel a mim mesma e àquilo em que acredito!

Tem uma carreira impressionante, mas sempre manteve uma certa distância da imprensa. Foi uma decisão consciente? 

Isso é interessante porque eu acho que até tenho estado mais recetiva no último ano para promover o meu novo álbum. Eu escolho a imprensa da mesma forma que escolho uma atuação, tem de me apelar e tenho de me sentir conectada à revista ou pelo menos aos assuntos sobre os quais se estão a questionar.

«É preciso uma combinação de múltiplas alterações e movimentações na sociedade para gerar um verdadeiro momento de mudança.»

 

Com as redes sociais, idem. Com exceção do Facebook, não é muito ativa. Porquê?

Eu uso o Facebook, o Soundcloud e o Instagram para propósitos musicais apenas, não gosto de veicular a minha opinião, ainda que seja uma pessoa muito opinativa, mas não quero perder o meu tempo a escrever longos textos sobre assuntos irrelevantes. Vejo muitas pessoas a usar as redes sociais para se verem livres da frustração ou a interferir com a vida de outras pessoas e, na verdade, não me quero relacionar com isso. Porque tudo isso é tempo precioso que podes gastar a fazer música em vez de estar a falar disso o tempo todo. É um erro fácil e infelizmente para muitas pessoas tem-se tornado o foco principal.

Hoje em dia podes construir uma carreira inteira com base na presença em redes sociais sem ter de facto talento. Isso está a poluir a qualidade da indústria.

Em janeiro publicou um vídeo num estúdio de música em Portugal. Costuma vir a Portugal muitas vezes? 

Desde o ano passado que vivo no interior do país durante metade do meu tempo. É uma ótima forma de fugir da vida citadina de Berlim e eu apaixonei-me por Portugal e pela mentalidade, é uma lufada de ar fresco para mim.

O que podemos esperar da atuação no Lisboa Dance Festival? 

O meu melhor.