Porque É que Gostamos Tanto do Que Nos Faz Tão Mal?

Comida que engorda. Substâncias que causam dependência. Homens que não nos tratam bem. É mau? Quero! Imagem: © D.R.

Os investigadores estão há anos a tentar perceber a razão que nos leva a desejar – algo ou alguém – mesmo sabendo, à partida, as consequências da nossa escolha. Será inconsciência? Masoquismo? Ou qualquer coisa ainda mais complicada de definir: a necessidade de obtenção de um prazer que vale pelo momento único em que é sentido, independentemente do que se segue. Exemplos? Não conseguir resistir a alimentos que engordam ou fazem mal à saúde (e parece que, quanto pior fazem, mais nós gostamos!). Escolher namorados que obedecem sempre ao mesmo padrão de comportamento e que, invariavelmente, acabam por nos magoar. Cair (ou recair) em hábitos que, em última análise, podem colocar a saúde (ou a vida) em risco – é o caso daquelas pessoas que voltam a fumar depois de terem tido problemas sérios de saúde ou que fazem questão de tentar mais uma vez (subir uma montanha/ter um filho/atravessar um rio a nado) sabendo que o risco é bem maior que as hipóteses de sucesso.

Uma das teorias avançadas para o justificar colocava a culpa na dopamina, a nossa fonte de prazer, responsável por nos levar a ter gestos imponderados. Alguns estudos depois, chegou-se à conclusão de que as sensações agra- dáveis não dependem diretamente da dopamina, uma vez que a substância também é libertada em momentos de medo e stress. Ou seja, por si só, a dopamina não produz bem-estar nem conduz diretamente à busca descontrolada do prazer. O que ela provoca, isso sim, é a vontade de ter prazer e foca a nossa atenção na obtenção real desse prazer. Mas não se pode responsabilizá-la por atos de insensatez. Quando o alerta da dopamina é ativado, os mecanismos de aprendizagem e memória ficam mais apurados. É o sistema de
defesa a entrar em ação. É o que acontece quando um animal se aproxima de comida ou de um potencial parceiro sexual – a sua atenção foca-se em por- menores que garantam a sobrevivência (a sua e/ou da espécie). Como uma droga, a dopamina desperta-nos, intensifica as vivências, estimula os sentidos. Mas, quando as coisas correm mal, ela também está presente e “grita-nos” para não repetirmos a experiência.

Quando o nosso lado racional se submete aos nossos instintos, ficamos à mercê dos nossos desejos. E é nesses momentos que cometemos os mais graves erros, aqueles que, quando a racionalidade volta a tomar conta da nossa mente, nos custa a acreditar que ocorreram. Chega mesmo a acontecer as pessoas esquecerem-se de certos atos que cometem ou palavras que dizem… Como se, a um nível inconsciente, os negassem, até para si próprias. Em situações extremas, a procura obstinada do prazer pode transformar-nos em alguém que não condiz com a nossa personalidade habitual. Como se a falta daquilo que nos satisfaz nos consumisse de uma forma insuportável. Quando isso acontece ficamos viciadas (em substâncias, pessoas, situações). E temos um problema. Grave. Chegadas a esse ponto, só há uma solução: pedir ajuda. Antes que seja tarde.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de Março de 2017.