Falámos Com Quatro Mulheres Sobre Como É Ser Motorista da Uber

No Dia Internacional da Mulher, falámos com quatro mulheres que rompem estereótipos. Imagens: © D. R.

Longe vai a imagem cliché dos motoristas. Hoje há felizmente cada vez mais mulheres e tomar conta dos volantes. Conduzem carros, realizam viagens e preenchem, aos poucos, um mundo visto como predominantemente masculino. Falámos com quatro mulheres sobre a profissão: motorista.

Andreia Sequeira, 31 anos

Sobre decidir ser motorista

«Surgiu da necessidade de criar o meu próprio posto de trabalho, no fundo, de querer mudar a minha vida juntamente com o meu companheiro. (…) Inicialmente até arrancámos os dois só com um carro e conduzíamos os dois, ora ele ora eu.»

Sobre a reação dos passageiros

«Eu tenho 31 anos mas tenho uma cara mais miúda e as pessoas muitas das vezes ficam um bocadinho apreensivas. Eu até costumo dizer “Tenha calma que eu já conduzo há doze anos pelo menos”. Fora o facto da idade, as pessoas ainda estranham muitas vezes ser uma mulher. Algumas pessoas ficam agradadas, porque até lhes transmite uma certa confiança ser mulher, outras ficam um bocadinho desconfortáveis.»

Sobre a situação mais caricata numa viagem

«Foi um cliente que apanhei aqui na zona, em Cascais. Fui com ele ao shopping e ele disse-me “olhe, espere só aqui 10 minutinhos que estou super atrasado e a seguir leva-me já de volta”. Tudo bem. O senhor vem de lá de dentro com um saquinho da Zara e pede-me “olhe, não se importa só que eu troque de calças? É que vou para um casamento e estou atrasadíssimo”. Portanto isto fora Uber, também é provador (risos).»

Ailin Correa, 33 anos

Sobre decidir ser motorista

«Sou boliviana. (…) Abri uma firma com o meu marido, achámos que era uma boa oportunidade de negócio. Há flexibilidade horária. Era bom para mim, que tenho um menino com sete aninhos e precisa de atenção. Ser mulher não é fácil.

Sobre a reação dos passageiros

«Ainda acham estranho [ver uma mulher a conduzir]. Ainda esta semana tive duas ou três pessoas que me disseram “você é a primeira motorista Uber que eu tenho”.»

Sobre a situação mais caricata numa viagem

«Estou a divorciar-me e ontem apanhei um rapaz que está cá a tirar o mestrado e estivemos a falar da minha vida… Quando lhe disse que estava a passar por um processo de divórcio, há já três meses, o rapaz disse-me “Congratulations!”. Foi a primeira pessoa que em três meses me disse a coisa que eu realmente sinto: eu estou feliz como estou agora.»

Maria Fonseca, 51 anos

Sobre decidir ser motorista

«Tive uma amiga [que já era motorista] que me desafiou e eu decidi experimentar. Eu tenho outra atividade e este é um complemento que eu achei que era ideal: gosto de conduzir, gosto muito de falar (risos). Resolvi experimentar.»

Sobre a reação dos passageiros

«Ainda acham estranho. Incrível, não é? Mesmo estrangeiros, ainda encontro imensas pessoas dizendo que é a primeira vez que encontram uma mulher. Para elas é estranho e depois fazem imensas perguntas sobre a questão da segurança, se me sinto segura, se tenho medo… Fazem imensas perguntas nesse sentido.»

Sobre a situação mais caricata numa viagem

«Já tive imensas, já tive um casal de mãe e filho que queriam ir ao Cristo Rei, e entretanto o Cristo Rei estava fechado(…) Ficámos à porta, eles tiraram fotografias, e depois pediram-me opinião do que é que deviam fazer. (…) Acabámos por dar uma volta imensa e depois deixei-os em Cacilhas para comer peixe. Foi uma conversa cinco estrelas e um abraço imenso quando acabámos. Foi muito engraçado. Essa [situação] tocou-me de especial maneira. (…)Parecia que já nos conhecíamos a vida toda.»

Sofia Silva, 38 anos

Sobre decidir ser motorista

«Eu tinha outra atividade profissional, mas, como moro sozinha, já não estava a fazer face às minhas despesas. E entretanto tomei conhecimento da Uber, achei o projeto engraçado, conheci uma pessoa parceira [da Uber] que me perguntou se eu não queria começar a fazer os fins-de-semana, para experimentar. Começou a puxar um bichinho e decidi apostar: comprei um carro, tornei-me parceira e sou motorista. Sou tudo.»

Sobre a reação dos passageiros

«As pessoas acham estranho. Eu já fiz mais de cinco mil viagens, nunca tive feedback negativo, e faço muitas noites, apanho-as no pior estado da vida delas. As pessoas ficam super admiradas. (…) Mas questionam-me “como é que uma mulher não tem medo de andar aqui?”. A sério que não tenho, eu adoro o contacto com as pessoas. (…) Eu tenho imensos comentários na plataforma, a agradecer-me. (…) É uma recompensa muito grande. Os homens acham curioso, as senhoras adoram, sentem-se muito mais confortáveis e seguras.»

Sobre a situação mais caricata numa viagem

«A situação mais insólita foi uma situação de assédio, de um senhor que estava completamente bêbado. De um momento para o outro, sentiu necessidade de extravazar a vida dele, começou aos berros no meio carro (…) Até que chegou a um ponto e disse “você é uma mulher lindíssima, loira de olhos azuis, meu Deus, estou completamente apaixonado”. E eu pensei ‘uau, isso não vai correr bem’.»