Panda Biggs Censurou Beijo Homossexual na Série «Sailor Moon Crystal»

A diretora do canal alegou que o público, crianças dos 8 aos 14 anos, poderiam não compreender esta realidade. Por: Inês Aparício -- Imagens: © D. R.

A homossexualidade em desenhos animados não é uma novidade. A Disney já exibiu, no ano passado, um beijo gay na série Star vs. as Forças do Mal, e a série japonesa Sailor Moon Crystal seria mais um exemplo da exibição de afeto entre duas personagens do mesmo género, desta vez em Portugal, se o Panda Biggs não tivesse eliminado essa cena.

Foi já no passado mês de dezembro que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social recebeu quatro participações, além de uma enviada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, contra o canal infanto-juvenil, relacionadas com a transmissão da série de manga. De acordo com a ERC, «os participantes afirmam que o referido serviço de programas [Panda Biggs] censurou uma cena de um beijo entre duas personagens de género feminino, nos episódios 29 e 30, bem como todas as cenas onde se fala de identidade de género de uma das personagens, nos episódios 31 e 33».

O corte do beijo entre Michiru e Haruka – personagem descrita pelo Público como uma «rapariga com gostos, comportamento e aparência geralmente associados ao género masculino» – espelha, segundo um dos queixosos, «a invisibilidade a que se sujeitam temáticas como orientação sexual, identidade ou expressão de género não normativas» que se traduz «na desvalorização social destas pessoas [homossexuais] colocando-as numa situação de fragilidade e marginalidade social».

Panda Biggs explica o corte das cenas

Contactado pela ERC, o serviço de programas explicou que «tendo sido analisado o conteúdo dos episódios, na perspetiva da sua adequação ao público-alvo e perfil do canal Panda Biggs, constatou-se, na livre, mas, naturalmente, suscetível de desacordo, avaliação e opinião da Direção (…) que as cenas em causa, pelo seu teor, poderiam não ter o melhor acolhimento e suscitar reações de índole contrária à que as queixas refletem».

A diretora do Panda Biggs revelou ainda que a decisão teve por base a possível reação do público-alvo – crianças dos 8 a 14 anos -, e apelou à liberdade editorial: «Tratou-se tão somente de uma apreciação de natureza editorial, que nada tem a ver com censura».

A decisão da ERC

Depois de analisar as várias participações, a ERC concluiu que nenhuma das cenas apelava «à discriminação em razão da orientação sexual, ou alguma forma de veicular má informação para o público telespetador» e, desta forma, decidiu arquivar o processo.

«É forçoso reconhecer que as temáticas da homossexualidade e do transgénero ainda não são, no contexto social atual, inteiramente aceites por toda a sociedade portuguesa, originando controvérsia. Pode admitir-se, até, que sejam de uma apreensão mais complexa para as crianças. Não se põe, por isso, em causa a liberdade editorial do serviço de programas Panda Biggs, que tem a liberdade de escolher os programas que transmite», pode ler-se na deliberação da ERC.