Mais do que Vestir Roupa, Esta Estação Pode Vestir Arte

Ainda que a relação entre Moda e arte não seja exatamente recente, esta estação está mais quente do que nunca. Por: Kenya Hunt -- Imagens: © Imaxtree.

Quando é que foi a última vez que abriu o seu guarda-roupa pegou num vestido e pensou, “Isto sim é uma obra de arte”? Mas juntas, arte e moda formam uma dupla imbatível. Elsa Schiaparelli e Salvador Dalí. Yves Saint Laurent e Piet Mondrian. Vanessa Beercroft e Helmut Lang. Damian Hirst e Alexander Mc- Queen. Louis Vuitton e Richard Prince. A lista continua. Mas recentemente, o flirt evoluiu para uma relação séria.

As coleções de primavera encheram-se de padrões retirados diretamente de paredes de galerias. Vestidos, saias e casacos foram telas. O corpo, o museu. E ainda que a combinação arte e moda não seja recente, é novidade no ciclo das tendências. Em Calvin Klein, Raf Simons usou a série de Andy Warhol, Death and Disaster, para ilustrar camisas e vestidos. Além do fator cool e instagramável, as peças estavam carregadas de significado.

Neste caso, Simons usou-as como parte da sua crítica à sociedade americana. Mas o designer não foi o único a utilizar a obra do artista americano, também Donatella Versace o fez. Na coleção em que prestou tributo a Gianni, utilizou a representação icónica de Marilyn Monroe, de 1962.

Na sua passerelle, Miuccia Prada olhou para artistas contemporâneas – especificamente de banda desenhada e manga, como June Tarpé Mills, a criadora da primeira super-heroína feminina – para criar os estampados gráficos que empoderaram a sua coleção. Entretanto, a Coach celebrou o trabalho de Keith Haring, com o diretor criativo Stuart Vevers a usar os icónicos Dancing Man do artista em praticamente todas as suas malhas. Noutras paragens, quando se olha para os padrões da Marni ao pormenor percebe-se que são efetivamente uma recriação de obras do pintor David Salle. E os rostos que adornavam os vestidos da Undercover são, na verdade, de uma série de auto-retratos de Cindy Sherman.

E quando a semana de Moda de Alta-Costura começou, essa altura do ano em que a Moda tem mesmo o estatuto de arte (com o preço na etiqueta a condizer), as referências à arte continuaram. Maria Grazia Chiuri explorou o movimento surrealista, utilizando o trabalho da artista Leonor Fini para acrescentar um novo capítulo à sua mensagem feminista. E ainda que a lista continue, o espaço nesta páginas é limitado, por isso ficamo-nos por aqui em matéria de exemplos. E mesmo que visitar museus seja sempre uma boa ideia, esta estação os designers tornaram possível usar a arte à flor da pele. Mas porquê agora?

«A expressão própria e o escapismo desempenham um papel fundamental na moda, e ter referências ao universo artístico nas nossas peças de roupa encapsula este sentimento,» explica a diretora de moda da plataforma Matches Fashion, Natalie Kingham. Por outro lado, Elizabeth von der Goltz, diretora mundial de compras do Net-a-Porter, refere a ousadia da arte e a sua incapacidade de passar despercebida na era do Instagram, em que tudo se quer tão partilhável. «Acho que não podemos ignorar o papel das redes sociais na formação desta tendência, já que tudo o que é gráfico e fotografa bem gerará naturalmente muito mais interesse».

Na era da fast fashion o apelo da arte é inegável. Implica longevidade, sabedoria, trabalho manual – o oposto dos seis meses que durará aquela camisola que comprou à hora de almoço impulsivamente. Mas a arte é também uma forma de olhar para o que nos rodeia. Quando Marc Jacobs se juntou a Richard Prince, para a coleção de primavera-verão 2008 da Louis Vuitton, o resultado não foi só um inesquecível momento de moda, mas também uma crítica contundente a um mundo obcecado por celebridades.

Mas e se não quiser que as suas roupas guardem tanta bagagem cultural? A um nível prático, esta tendência traz alguns desafios. Porque, sim, é um padrão. Mas um que não é tão versátil quanto os florais, ou as riscas, que se reinventam em novos formatos e cores a cada ano.

Usar um vestido com uma obra de Andy Warhol já é suficientemente a rmativo, por isso, Kingham aconselha que este tipo de padrões se combine com «peças lisas, como o denim, cores escuras, ou uma camisa branca». E ter uma obra de Haring recriada em lantejoulas numa sweatshirt dispensa, na verdade, outras cores e padrões. Ou, pode sempre fazer como a mulher Versace e usar a arte dos pés à cabeça. Mas lembre-se: no final, quer usar o Warhol, não quer que o Warhol a use.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2018.