O Diretor Criativo da Nina Ricci Fala Sobre o Romantismo da Marca

Guillaume Henry exerce o cargo desde 2015. São três anos de peças cosidas a romance. Imagens: © Dario Aranyo

«Atualmente estou a perseguir a mulher Nina Ricci. Ela já foi a personagem principal de inúmeras aventuras, e ainda que desconheça onde estará daqui a seis meses, sei onde está hoje. Espero que o livro que se escreva seja de amor». Quem o diz é Guillaume Henry, diretor criativo da marca há três anos. Palavras que remetem o amor real de Henry pela delicadeza da Nina Ricci que o chamou em janeiro de 2015.

ELLE: Que qualidades se destacam na mulher Nina Ricci?

GUILLAUME HENRY: Está em constante movimento. Mesmo nas fotografias que fazemos, ela nunca posa simplesmente, há sempre acting envolvido. É como um pássaro, que nunca passa demasiado tempo inativo.

É romântica?

Sim, mas isso não significa que seja tonta. Uma enamorada pode ser forte e atrevida. São coisas muito distintas.

Tem sempre um toque francês?

O mundo inteiro diz-me que sim e acho que isso acontece porque não posso lutar contra o meu próprio ADN. Talvez advenha das minhas referências culturais, da minha educação, daquilo que me influenciou desde criança, dos filmes com que cresci… Adorava aquele momento em que os meus pais saíam para jantar e a minha mãe se arranjava para estar elegante. Ela escolhia sempre um vestido preto ou azul-marinho, e isso para mim é a definição de elegância. Não é possível contrariar aquilo que desde sempre foram as tuas referências, aquilo que desde sempre fez parte de ti.

Foi nesse instante que percebeste que querias ser designer?

Um dia, quando era muito pequeno, disse aos meus pais que queria ser arqueólogo, pintor, ou arquiteto e, como contar histórias me encanta, também sonhava ser realizador ou escritor. Nada relacionado com Moda, porque ainda não sabia o que significava para mim. Até certo momento da minha vida a roupa era só o que usava para me proteger do frio. No inverno usava uma sweatshirt e no verão uns calções. Era muito simples. Até que aos nove anos vi um programa de televisão sobre o Yves Saint Laurent que me emocionou. Nesse dia pensei: quero fazer alguma coisa assim.

«Aos nove anos vi um programa de televisão sobre o Yves Saint Laurent que me emocionou.
Nesse dia pensei: quero fazer alguma coisa assim.»

E como és tu?

Sou francês de sangue e alma. Também sou como uma esponja: adoro conhecer pessoas novas e culturas diferentes, ouvir música, ver filmes, ler livros e colecionar imagens. Depois converto tudo aquilo que absorvo num relato pessoal, que no meu caso se materializa em roupa. E quando tudo aquilo se junta, num determinado momento do tempo, conto uma história, é a história daquela estação.

Que história nos contas este inverno?

A de uma mulher que vive entre o Velho Oeste e um espetáculo circense. A nossa indústria pode ser divertida e ainda assim estar ligada à atualidade. Se acontecem coisas duras à nossa volta (e não estou só a falar de questões políticas), precisamos de outras que nos entretenham, como um circo. É preciso desfrutar. E ainda que sempre tenha considerado esse mundo aterrador, a sua estética é interessante. Reiventei-o porque não quero que as pessoas se vistam como palhaços, nem que pareçam cowboys. Mas jogar com ele pode ser cativante.

«Parto sempre das cores e dos tecidos, e só depois é que desenho.
Nesta coleção os tons pastel são a chave.»

 

Como é que fazes esse jogo?

Parto sempre das cores e dos tecidos, e depois desenho. Outros podem criar primeiro a melodia, e depois acrescentam os instrumentos e a letra, eu prefiro fazer ao contrário. Nesta coleção os tons pastel são a chave. Nunca os tinha utilizado porque me parecia perigoso para a Nina Ricci. Não queria misturar açúcar com açúcar (risos)… Podia acabar por ser demasido doce. Por issso misturei-os com o mood rodeo. E como os materiais são sensuais e fortes, a mistura foi perfeita.

E qual é o papel da renda no conjunto?

É fundamental, porque quando pensamos em Nina Ricci este tecido vem-nos imediatamente à cabeça. Acrescentámos-lhe mais elasticidade para o tornar numa camisa. E não é só para se usar à noite, adoro pensar que possa ser vestido de dia também, porque adoro esse contraste. A vida está cheia deles.Na segunda-deira podes estar feliz, na quarta queres esconder-te do mundo, e no dia seguinte queres-te divertir. Daí que goste dessa ideia de combinar um vestido de noite com um par de ténis.

Tens alguma recordação de infância da Nina Ricci?

Não tenho nada claro na memória, embora saiba que sempre esteve ali. Fascinava-me o nome e as campanhas dos seus perfumes. Adoro as coisas que perduram.

Nesse sentido, o que é que achas que compre da Nina Ricci, que me dure a vida toda?

Um casaco. Em preto ou azul marinho.

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2018.