Morreu Hubert de Givenchy, um dos Grandes Nomes da Moda do Séc. XX

Deixa-nos um dos mais importantes designers da história da Moda. Por: Sophie Gachet -- Imagens: © Benoit Peverelli, Marcio Madeira, Lionel Kazan e D. R.

O mundo da Moda ficou mais pobre. Hubert de Givenchy, fundador da Givenchy, morreu este sábado, dia 10 de março, aos 91 anos, anunciou hoje o seu companheiro Philippe Venet. Em sua memória, recordamos a entrevista com o designer francês publicada na Elle de junho de 2015, sobre o seu percurso invejável e a incontornável musa, Audrey Hepburn.

O grande mestre

Elegância. Foi essa a primeira palavra em que pensámos, assim que Hubert de Givenchy cruzou a porta da sala em que o esperávamos. Tem uma noção de estilo incrível e, sobretudo, uma forma especial de nos cumprimentar, que vem de outra era. Uma era em que a cortesia não era uma atitude necessária, mas simplesmente uma forma de ser e um estado de alma.

É, sem espaço para dúvida razoável, um dos grandes designers do nosso tempo, ainda que desde 1996, o ano em se retirou, depois da venda da marca ao grupo LVHM, se mantenha afastado da indústria da Moda. Mas o mundo não esquece Hubert (nem o poderia fazer) e, em 2014, o Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid, dedicou-lhe uma exposição. No final desse ano, em novembro, talvez como sinal de agradecimento ao amor que lhe foi dedicado, ou talvez como sinal de reconhecimento de que o mundo ainda o quer por perto, Monsieur de Givenchy lançou um livro de esboços, em homenagem à sua grande amiga, Audrey Hepburn. («To Audrey With Love», ed. Imagine, pode ser comprado em www.amazon.com.)

Começou no meio da moda aos 17, criou a sua casa de couture aos 25 e, juntamente com o seu irmão, lançou um perfume aos 30. Um currículo invejável, em que o sucesso foi sempre o denominador constante. Nele não há nostalgia, apenas a humildade característica daqueles que não têm nada a provar. Para a entrevista que nos concedeu, tirou efetivamente tempo para nos receber e quando a acabámos, saímos com a certeza de que aquele tinha sido um encontro único com um grande homem.

Teve uma carreira excecional. É verdade que, por pouco, podia não se ter tornado designer de moda?

Sim. A vida não é mais do que destino. Mas, de facto, se não me tivesse cruzado com Jacques Fath na escada do seu atelier naquele dia, talvez nunca me tivesse tornado designer. Basicamente, como queria ser couturier, requisitei uma reunião com ele. O dia e a hora ficaram marcados. Nunca tinha entrado num atelier até ao dia da entrevista e para mim, que vinha da província (nasceu em Beauvais), foi uma experiência extraordinária.

Havia fragrâncias fortes no ar, modelos seminuas e clientes em provas. Mas Fath estava mais de uma hora atrasado e quanto mais eu esperava, mais ansioso ficava. Até que chegou a um ponto em que eu simplesmente não conseguia esperar mais, por isso inventei uma desculpa, disse-a à rececionista e comecei a descer as escadas e foi aí que me cruzei com ele.Perguntou-me o que é que eu queria fazer, olhou para os meus esboços e deu-me um lugar de assistente, que por coincidência tinha vago na altura.

Como é que a sua mãe reagiu?

Não lhe disse logo. Quando comecei, perguntei a Jacques Fath a que horas devia chegar e ele respondeu-me «não antes das 11h». Ora numa família protestante como a minha, em que tínhamos de nos levantar cedo para cumprir as nossas obrigações, esse horário nunca faria sentido, por isso disse à minha mãe que estava a estudar na escola de Belas Artes. Parecia-me mais sério e aceitável. E foi assim que comecei. Cada dia era de felicidade pura e cada Casa de Moda em que trabalhei era realmente interessante. Com Fath diverti-me imenso. Já na Robert Piguet era tudo super sério e organizado. E na Schiaparelli descobri o verdadeiro significado de chique.

Deixou a Schiaparelli, para abrir a sua própria marca, quando tinha apenas 25 anos…

Queria expressar-me. Quando comecei não fazia sequer fatos completos, só camisas e saias, que podiam ser combinadas entre elas. Na altura ninguém o fazia, e isso permitia às clientes criarem o seu próprio look.

Que tipo de chefe era?

Acho que não posso ser eu a dizer isso. Mas posso dizer que todas as pessoas com quem trabalhei eram extraordinárias. E passados todos estes anos, ainda recebo cartas de pessoas que trabalharam comigo, outras aparecem para almoçar e outras ligam-me. Tínhamos um ambiente único no atelier e uma ligação genuína com as nossas clientes.

Quando pensamos em Audrey Hepburn, associamo-la a si. Como é que a vossa amizade começou?

A pedido dela, fiz as roupas que usou em Sabrina. Mas o meu nome não aparece nos créditos. Para mim não foi importante, porque soube que aquele filme me tinha permitido conhecer a pessoa mais bela do mundo. Mas a Audrey não deixou aquela falha passar. Depois disso, ela disse-me “A partir de agora vou pedir que sejas o único a vestir-me para os meus filmes”. E foi assim que começou. Tornei-me parte da vida dela. Fiz o vestido de batizado de um dos seus filhos e, às vezes, ela ligava-me e dizia “só liguei para dizer o quanto gosto de ti” e desligava de seguida.

A Audrey costumava dizer «O Hubert criou o meu look». E o Hubert costuma dizer «A Audrey criou o seu próprio estilo». Quem está certo?

Não sei se podemos decidir isso. Sempre foi, sobretudo, uma alquimia. Sugeria-lhe coisas, mas nunca lhe impus nada.

Ela tornou-se a imagem do seu perfume, L’interdit…

Na altura perguntei-lhe se ela gostaria de representar o meu perfume e ela disse que sim! Naquele tempo, ainda não era habitual que uma atriz, ou uma mulher, fosse a cara de um perfume. Mas a campanha funcionou realmente bem, porque as mulheres queriam ser como ela. Ainda hoje, o perfume continua a vender.

Que conselho daria, hoje, a um jovem designer?

Que desenvolva um estilo próprio. É essencial!