Julia Restoin Roitfeld Fala Sobre Moda, It Girls e Estar Online

Não há sotaque francês, mas há um estilo inato em Julia Roitfeld que não lhe esconde a herança. Por: Joana Moreira -- Imagem: © Mango.

O peso do nome Roitfeld não a deslumbrou. Pragmática, Julia renega a realeza que lhe é atribuída, mas não o privilégio. Pela primeira vez em Portugal, falámos com a embaixadora da Mango – e fonte de estilo inesgotável.

Muitos associam-te ao termo it girl. O que é que achas deste rótulo?

Não gosto da expressão, porque acho que it girl é uma espécie de «rapariga do momento», algo que é só imediato. É demasiado breve. Ainda assim sou sortuda porque têm-me chamado isso durante os últimos dez anos.

Quais são as tuas referências?

Jane Birkin, Brigitte Bardot, ou Elizabeth Taylor, que fez tanto trabalho de solidariedade… Olho mais para estes exemplos a seguir do que para it girls.

Como é que foi crescer na indústria, sendo filha de Carine Roitfeld?

Não foi um problema de todo, primeiro porque o meu último nome é, na verdade, Restoin. Depois, porque a carreira da minha mãe só disparou quando eu tinha 18 anos e estava fora da escola. Também não tínhamos redes sociais e a imprensa não era como é hoje… Além de que fui muito sortuda porque me abriu portas quando quis fazer estágios em agências de publicidade e me ajudou a começar no mundo da direção de arte.

Reconheces esse privilégio…

Claro, mas depois é preciso tirar o máximo partido disso. Consegui estágios super facilmente, mas, precisamente por isso, tive de provar que merecia ainda mais, que não era uma miúda mimada.As pessoas abrem-te as portas, mas não para sempre.

Li que odeias o termo «fashion royalty». Podes explicar porquê?

Porque não entendo. Para mim não há nada de realeza na Moda. Desculpa dizer isto, aliás, nem devia dizê-lo.

É uma expressão datada?

É datada e não gosto do que significa, quando ouço fashion royalty penso em pessoas a quem foram abertas todas as portas e não fizeram nada. Não gosto. Sou parte da indústria da Moda, não de um reino.

Como é que surgiu esta parceria com a Mango?

Trabalhei com eles há dez anos, depois voltei a fazê-lo há três anos, e fomos construindo uma relação. Gosto que seja uma marca acessível. Não é luxo, mas, ainda assim, é bom. Fazem os mais incríveis casacos de pelo falso – há um cor de framboesa maravilhoso.

És muito presente nas redes sociais, como é que lidas com elas?

Antes era péssima. Mas depois começa a ser quase obsessivo: acordo, vou ver, gosto de saber o que os meus amigos estão a fazer. É uma mistura estranha, por um lado é uma ferramenta de trabalho e ao mesmo tempo uso-a a nível pessoal.

É possível um equilíbrio?

É difícil, ainda estou a tentar. É do género: «Preciso de pôr esta foto, mas parece pretensiosa, mas é para trabalho…»

Pensas muito nisso, em cair no pretensiosismo?

Sim, penso: «Tenho de pôr uma selfie por causa desta marca de maquilhagem, mas o que é que os meus verdadeiros amigos vão pensar?» Há quem tenha uma conta profissional e outra pessoal, mas dá demasiado trabalho. Já tenho o meu site, Romy and The Bunnies… é o suficiente.

Em tempos de instabilidade política, em que se fala cada vez mais de assédio sexual, alterações climáticas… Como é que achas que a indústria da Moda vai reagir?

Não gosto muito de misturar. Porque acredito que a Moda deve fazer-te sonhar e abstrair-te da realidade. E é bom poder sonhar. Mas também é bom ter uma voz e usá-la. A mim tudo me preocupa, mas uma das causas a que escolhi dedicar-me é o aquecimento global, tentando ser mais consciente com o que desperdiço. Sinto que nem precisas de ter uma atitude política, basta que tu faças uma pequena diferença.

Mas, no final, a Moda continua a ter de te fazer sonhar…

Sim, mas convites e convites, tudo em plástico, para quê? Enviem um e-mail. Temos de viver no nosso tempo.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2018.