Como É Que a Moda Reinventou o Significado do Cor-de-Rosa

O cor-de-rosa, as rendas e os folhos estão de volta, e assumidamente longe do estilo Barbie. Imagens: © D.R.

Há algumas temporadas, as semanas de moda passaram a dar ouvidos ao feminismo e, com isso, uma certa inspiração revolucionária entrou para o repertório das marcas de luxo. Se por um lado, vozes importantes desse universo se levantam contra o sexismo, o racismo e as políticas absurdas do presidente dos EUA, não serão elas também parte integrante de um sistema que oprime as mulheres com códigos de feminilidade restritivos, padronizados e preconceituosos?

«A feminilidade é um conceito muito amplo, mas, no senso comum, não é mais do que o conjunto de elementos que formam a ideia hegemónica do que, supostamente, seria ‘próprio’ da mulher, ‘natural’» diz a antropóloga Carla Cristina Garcia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Como vivemos num mundo machista, entre essas características estão a fraqueza, a submissão e uma certa alienação caricatural. Na moda, durante muito tempo, isso foi representado pelo mundo cor-de-rosa das rendas, folhos, plumas e transparências. Mas o jogo mudou de sentido.

Durante muito tempo, as supostas características femininas
foram representadas por esta cor e pelas rendas.

 

NEW GIRL IN TOWN

Nessa batalha que envolve criar novos significados para modelos antigos, designers como a britânica Molly Goddard estão na linha da frente. Em 2014, com um desfile amador, Goddard chamou a atenção de revistas como a Dazed e a i-D e tornou-se num nome obrigatório para os consumidores mais cool. O trunfo da criadora está na forma como trabalha o tule, um tecido profundamente ligado ao mundo da feminilidade, que, nas suas mãos, ganha um novo significado.

Usando quase trinta metros do material em cada peça, Goddard exagera tanto nas proporções que o resultado chega a ser irónico. Isso combinado com o seu casting eclético de modelos é o que tem transformado as suas peças em objetos de desejo. É preciso lembrar que, quando as transparências da designer chegam às ruas, aparecem sobrepostas a jeans e t-shirts de bandas rock ou punk, que contribuem para a ironia que Goddard quer aplicar ao estilo girly.

O mesmo acontece com as fadas e bruxas da alta-costura da Dior de Maria Grazia Chiuri. Chiuri apropria-se de tecidos leves, de modo a dar-lhes peso, e mostra que o mundo do sobrenatural, representado nas suas coleções por elementos místicos e pela astrologia (atividades culturalmente ligadas às mulheres e, por isso, deslegitimadas), também tem valor.

O trabalho das criadoras responsáveis pela despretensiosa Me & You também merece crédito. Nascida em 2015, com cuecas, t-shirts e sweatshirts com a palavra “feminist” estampada, a marca das norte-americanas Julia Baylis e Mayan Toledano tornou-se num fenómeno no Instagram. «A maioria das peças de lingerie é feita para agradar aos homens. E isso está muito longe de ser uma de nossas preocupações», disse a primeira ao The New York Times. Esse ponto de vista millennial (que troca a necessidade da aprovação masculina pela identifcação com outras mulheres) surge também no coletivo fundado pela fotógrafa canadiana Petra Collins. Amiga de Alessandro Michele (diretor criativo da Gucci), a artista, conhecida por escolher temas relacionados com o corpo feminino, é a responsável pelo Ardorous, uma compilação de projetos artísticos individuais ou coletivos feitos por e para mulheres. As designers da Me & You fazem parte.

No cinema, quem representa o movimento é a premiada Sofia Coppola. The Beguiled, obra com a qual arrecadou em 2017 o galardão de melhor realização em Cannes, é um remake de um filme de 1971 de Don Siegel. Na versão de Coppola, mais do que a história do soldado, o que importa são as mulheres que o resgatam. O guarda-roupa é todo em tons pastel, tecidos acetinados e estampados forais. Uma escolha que poderia servir como disfarce, mas que na verdade ajuda a desenhar a força e o poder dos desejos das personagens de Nicole Kidman, Elle Fanning e Kirsten Dunst.

As coleções Resort 2018 da Prada e da Valentino quebram
a delicadeza do rosa com apontamentos desportivos.

 

As coleções resort 2018 da Prada e da Valentino seguem essa linha, quebrando a delicadeza do rosa, das transparências e dos brilhos com um toque desportivo. Enquanto Miuccia trabalha com tecidos aerodinâmicos, Pierpaolo Piccioli namora o hip-hop. Stella McCartney, Victoria Beckham, Marc Jacobs e Altuzarra seguiram-lhes o exemplo.

O atual momento indica não um regresso à Barbie, mas ao reinado da Imperatriz do tarot, o oráculo que é uma das grandes referências do trabalho de Maria Grazia Chirui na Dior. A carta número três desse baralho remete precisamente para o arquétipo positivo do feminino: a sensibilidade, a abundância, o contato com a natureza, a apreciação do belo, e da vida. Pelos vistos a estratégia da moda para acabar com o inimigo, é rir-se da cara dele e divertir-se ainda mais.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de fevereiro de 2018.