Conversámos com Natacha Ramsay-Levi, A Nova Diretora Criativa da Chloé

Para a sua estreia na Chloé, Natacha Ramsay-Levi trouxe novidade e história, revolução e continuidade. Por: Véronique Hyland -- Imagens: © Cecile Bortoletti

Aninhada num recanto da sala de pequeno-almoço do Mercer Hotel em Nova Iorque, Natacha Ramsay-Levi parece uma qualquer turista cool europeia que palmilha as ruas de Soho. O cabelo perfeitamente ondulado. As sobrancelhas invejavelmente indomáveis. E nos dedos uma fileira de anéis dourados presa por uma série de aros e correntes – uma espécie de soqueira reinventada.

Desde que foi nomeada diretora criativa da Chloé, em Março de 2017, a designer de 38 anos tem sido o foco de muitas discussões entre os amantes de Moda. Quem é afinal esta semi-desconhecida que se junta a Karl Lagerfeld, Phoebe Philo, Stella McCartney, e, mais recentemente, a Clare Waight Keller na lista de ilustres designers que já conduziram a marca francesa nestes 66 anos? De que forma imprimirá a sua visão?

A resposta guarda-se provavelmente naquela soqueira. Desenhada para a sua coleção de estreia funciona como um guia para a sua estética, definindo sobretudo o ponto em que o étereo se funde com o agreste. Uma mistura na dose certa que a pariesiense aperfeiçou durante os 15 anos em que trabalhou com Nicolas Ghesquière: primeiro durante a estadia do designer na Balenciaga, onde começou como estagiária, e depois na Louis Vuitton, onde ocupou as funções de diretora criativa.

Ter sido acólita de um dos mais destacados futuristas da moda – as inspirações de Ghesquière variam entre o sci-fi, o anime, e, no caso desta estação, a série Stranger Things – tornaram Ramsay-Levi numa escolha inesperada para reinar no historicamente mundo boémio da Chloé. E até ela sugere que ficou ligeiramente surpreendida com a proposta: «Tenho o Nicolas sob a pele,» diz. «Podia ter continuado mais 15 anos com ele. Entretanto a situação da Chloé aconteceu e estou super feliz por isso, mas não estava à procura de nada».

Quando a mudança aconteceu, Ghesquière deu-lhe o seu total apoio («Ele achou que eu estava super preparada»), marcando inclusive presença no seu primeiro desfile.

«Para criar um bom momento de Moda tens de equilibrar

o Presente e o Passado. É uma combinação entre aquilo que sempre foi bonito e o zeitgeist, o espírito do momento». 

 

Assim que assumiu o seu novo cargo, Ramsay-Levi deixou-se envolver pelo facto de ter a oportunidade de «falar com os arquivos» da casa. Anos antes tinha trocado os planos de ser historiadora para perseguir uma carreira na moda. Talvez por isso descreva essa imersão nos arquivos como quase espiritual, um encontro de mentes.

O resultado foi uma coleção que tem tanto de nostálgica como de contemporânea. Peças estampadas, criadas em colaboração com a artista Rithika Merchant, evocam os vestidos pintados à mão que Karl Lagerfeld criou para a marca nos anos 70. Padrões equestres são uma clara alusão à era Stella McCartney. «Há basicamente referências a todos os designers anteriores. Há um pouco do Karl, da Martine [Sitbon], da Stella, da Phoebe, e claro do legado da Clare – ela enfatizava tanto a leveza das coisas». A sua grande referência foi, no entanto, a fundadora da marca Gaby Aghion, pioneira no conceito de luxo pronto-a-vestir.

Ao lado de Clare Waight Keller (agora na Givenchy) e de Maria Grazia Chiuri (na Dior), Ramsay-Levi ocupa uma posição única, sendo uma das poucas mulheres ao leme de uma marca francesa de luxo. Reforça que, nas peças que desenha, procura a praticidade e que compreende que a Moda está no seu melhor apenas, e quando, se ajusta a quem a veste. «Umas calças têm de ser confortáveis, de abraçar nos sítios certos. Uma carteira tem de ser fácil de abrir e ter espaço suficiente». E, se por um lado, diz que durante o processo de criação se perguntava inúmeras vezes se aquilo que estava a fazer era «suficientemente Chloé», por outro escolheu evitar a utilização descarada de logótipos, preferindo uma opção mais discreta, com o “O” de Chloé a aparecer estrategicamente em carteiras, peças e bordados.

De muitas formas Ramsay-Levi é a encarnação da mulher Chloé para quem desenha, representando o inefável estilo francês. «Para criar um bom momento de Moda tens de equilibrar o presente e o passado. É uma combinação, entre aquilo que sempre foi bonito e o zeitgeist, o espírito do mo- mento». Deixa-me com essa citação e com a certeza de que a história tem os olhos postos nela. E vice-versa.

 

Este artigo foi originalmente publicado na ELLE de junho de 2018.