Sara Sampaio Foi a Heroína que Precisávamos nesta Web Summit

A modelo falou sobre os abusos na indústria, o caso «Terry Richardson» e a importância de ter uma voz hoje. Por: Joana Moreira -- Imagens: © D. R.

Casa cheia para receber Sara Sampaio. «Olá a todos», disse, com um sorriso, naquelas que seriam as suas únicas palavras em português durante a primeira conferência da modelo na Web Summit, esta quinta-feira, em Lisboa.

«Na próxima semana faz 10 anos que ganhei um concurso aqui em Portugal e que começou tudo isto», começa por dizer. Uma década depois, as coisas mudaram. O Instagram, o Facebook e o Twitter vieram alterar a indústria da Moda e a própria postura das modelos: «Nós não tínhamos propriamente uma voz, aparecíamos simplesmente no trabalho, bonitas, caladas, sem dizer nada, fazíamos o trabalho e íamos para casa».

Com quase seis milhões de seguidores só no Instagram, o anjo da Victoria’s Secret admite que as novas plataformas ajudaram as modelos a ter espaço para se expressarem. «Tenho uma voz direta para milhões de pessoas, o que é muito poderoso», explica, admitindo contudo que «com isso vem também muita responsabilidade».

Sobre denunciar abusos da indústria

Parte das consequências da presença nas redes sociais é a possibilidade de chamar a atenção para situações desconfortáveis. Sara fê-lo no mês passado, quando acusou publicamente a revista Lui de publicar fotografias suas com nudez sem autorização.

«Levei algum tempo a decidir o que fazer. Mas a indústria [da Moda] precisa disto desesperadamente. Que se denuncie a pessoa pelo nome e que ela seja responsabilizada pelas suas ações».

No caso específico da Lui, a modelo tocou com o dedo na ferida, refutando o argumento de muitos de que não é a primeira vez que se despe para uma produção. «É uma questão de escolha», explicou. «Só porque beijaste muitos homens isso não te dá o direito de alguém vir ter contigo e beijar-te», comparou.

Sobre o caso Terry Richardson 

«Toda a gente sabia», diz, perentória, referindo-se ao fotógrafo norte-americano que, após anos a ser acusado de abusos sexuais a modelos, foi agora banido das principais publicações de Moda – no rescaldo do escândalo sexual que envolve Harvey Weinstein. «Toda a gente sabia [do caso Terry Richardson] e ninguém fez nada e agora usam-no como bode expiatório. É uma hipocrisia», rematou.

Sobre a desigualdade de género

«Todas as mulheres, quando falam por elas mesmas é do género ‘Oh, ela é feminista. Lá vem ela outra vez. Ela é complicada’. E quando um homem fala por ele mesmo é tipo ‘Oh, meu Deus, ele é tão inspirador’», diz, concluindo que «não devia ser assim».

Sobre a Moda, em particular, a modelo chama a atenção para um detalhe: «É engraçado como é que numa indústria, talvez a única no mundo, em que as mulheres ganham muito mais que os homens, a disparidade é ridícula, ainda assim somos tão exploradas na indústria», acusa. «Não somos respeitadas e temos de começar a perguntar: Porquê?»